a fuga do oblivium

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cena de In the mood for love (2000), dirigido por Wong Kar-Wai.
Minhas pernas se sustentam na lembrança de um amor que mistura memórias e imaginação. De tudo que poderia ser e daquilo que realmente foi.

Talvez essa seja a gênese de muitas histórias, talvez parte do cinema surja dessa ardente combinação. De certa forma, acho que essas reflexões possivelmente percorreram a mente do escritor Chow (Tony Leung Chiu-wai), personagem do filme honconguês 2046 (2004), de Wong Kar-Wai. Agora sou eu quem pergunta: seria o cinema uma memória que nunca existiu ou seria a memória que retorna à existência a partir do cinema?

Imagine sua irmã tomando uma xícara de café numa manhã qualquer. Ao levar o líquido à boca, ela percebe que está quente, se assusta e derruba a xícara no chão. Aposto que você imaginou uma cena que pode ou não ter acontecido. Se você tem uma irmã, talvez você já a tenha visto tomando café, isso se ela sequer gostar da bebida. Mas mesmo que você nem tenha irmã, e tenha imaginado alguém que não existe, a memória de alguém tomando café te auxiliou a construir a narrativa dessa breve cena. O ponto é que a imaginação e a memória se misturam a todo momento.

O cinema é imaginativo, mas também é reminiscência.

No longa In The Mood For Love (2000), também de Wong Kar-Wai, Chow, o mesmo que acompanhamos em 2046, vive um romance intenso e dificultoso com Su (Maggie Cheung), marcado pelo silêncio, desejos contidos e uma constante sensação de impossibilidade. Chow e Su se aproximam devido a uma dor em comum: suportar as traições de seus respectivos parceiros. A partir dessa proximidade, se apaixonam um pelo outro, mas suas amarras sociais e por ambos serem casados, nunca se permitem viver esse amor não tão proibido. Por nunca concretizar esse amor, o personagem carrega as marcas dessa lembrança nos seus dias futuros, que culmina até 2046, onde suas relações amorosas são superficiais. Isso porque ele é incapaz de se doar para as turbulências do amor, especialmente o de Bai Ling (Zhang Ziyi), sua nova vizinha com quem mantém relações casuais e vive um amor unilateral… Por parte dela, é claro.

Em meio a isso, Chow passa seus dias imaginando um trem fictício que parte de tempos em tempos para o ano 2046; uma excursão para o futuro em busca do passado. Nessa viagem, todos os passageiros procuram recuperar memórias perdidas, reviver sentimentos ou permanecer em um lugar onde nada muda, como uma tentativa de congelar momentos ou pessoas que não existem mais.

Enquanto Chow é influenciado pelo passado, ao ponto de criar um universo alternativo no qual seria possível retornar a dias melhores, no filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004), de Michel Gondry, Joe (Jim Carrey) depois de terminar seu relacionamento com Clementine (Kate Winslet), descobre que ela decidiu, através de um tratamento experimental, apagar as memórias que guardava dele. Com o coração partido, ele deseja fazer o mesmo, ainda que depois venha a perceber que pode ser uma má ideia. Estabelecendo um paralelo, será que Chow gostaria de reviver também as memórias dolorosas? A resposta é complexa, mas para ver Su, ele certamente reviveria. Quiçá apenas o pensamento dessa possibilidade já tenha mexido com o coração dele, nascida, então, a motivação para criar a narrativa de 2046.

É fácil perceber como a sétima arte e a nostalgia combinam.

O cinema pode surgir de memórias, narrá-las e até tentar apagá-las.

Assistir novamente a um filme, às vezes, é como revisitar a própria infância, ou como reencontrar alguém que está distante há muito tempo. Você está no futuro revendo o passado, assim como no mundo que Chow criou. Quem vai para 2046 não volta mais para o futuro, talvez porque o futuro já não seria mais o mesmo, ou porque para voltar, o passado precisa te permitir primeiro.

Assim é a memória, é saudade, é lupa em cima do futuro. Voltamos para conferir, porque é dela que somos feitos. Em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Joe percebeu que não fazia sentido apagar as memórias de sua ex para tentar superar aquilo que sentia por ela, pois a experiência já estava intrínseca à subjetividade. Quem ele se tornaria, no presente, sem essas lembranças? Aquela experiência também fez parte de sua construção pessoal, apagar isso seria mais do que apagar a verdade, seria apagar a si mesmo.

É através das experiências que essa arte se movimenta.

Não há discussão, o cinema é um vasto acúmulo de memórias, que se manifestam de inúmeras formas e em camadas subsequentes. Seja ao registrar experiências, evocar lembranças ou reinterpretar o passado. É a arte do fragmento de vivências.

Cada filme criado é como um novo trem que parte para 2046.