Desde que tive Covid pela primeira vez — foram 3, ao todo — sinto minha memória cada
vez mais ausente.
Hoje convivo com uma dificuldade de me lembrar de coisas simples. Me tornei o amigo
esquecido. Um grande amigo meu, que é o melhor contador de histórias que conheço, repete
com frequência:
“Você sabe essa história, Rafa”,
ao me contar pela terceira ou quarta vez
uma história intrigante que, ao que tudo indica, eu já sei.
Fotografia de Rafael Ossent.
Aprendi a lidar com isso e até criei
mecanismos.
Quando estou procurando algo, repito o nome do objeto enquanto o busco.
Antes de sair de casa, começo a repetir a sigla CCC — celular, carteira e crachá.
Fotografia de Rafael Ossent.
Me esquecer de coisas banais não me incomoda tanto. Me irrito mesmo com o esquecimento
de momentos que gostaria de lembrar.
Para essas ocasiões, adquiri dois hábitos.
O primeiro é a escrita. Escrevo no meu caderno ou no meu celular momentos que gostaria de lembrar.
Fotografia de Rafael Ossent.
Já o segundo é a fotografia
Encontrei nela a capacidade de estimular minha memória de forma
excepcional.
Fotografia de Rafael Ossent.
Ao olhar a foto da varanda do meu antigo apartamento em Lisboa,
Fotografia de Rafael Ossent.
me recordo do cheiro do
café Pilão que comprei em uma lojinha brasileira depois de meses sem beber café.
Fotografia de Rafael Ossent.
Ou então
das risadas escandalosas do Dominic, meu colega de quarto.
Fotografia de Rafael Ossent.
Ao olhar registros mundanos, me transporto momentaneamente a um tempo que já não existe mais
E me recordo de alguém que também já não sou.
retrato em preto e branco de Clarice Lispector.
Ela integra o conjunto de retratos históricos da
escritora preservados em acervos
como o do Instituto Moreira Salles (IMS).
Parece que estou em uma busca incessante por compreender
quem sou e como me sinto. Tento me recordar como certas
situações aconteceram e, por mais que eu tenha registros, algum
detalhe sempre se transforma cada vez que eu as revisito.
“Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu.”
Já dizia Clarice Lispector em sua crônica Lembrar-se. Poucas frases tecem as memórias
de forma certeira, um limiar entre real e imaginário. Ler Lispector é, para mim, entrar em
mentes e mundos que soam como meus, mesmo que não sejam.
Foi por esse caminho que cheguei a Yudith Rosenbaum, professora de literatura brasileira
na FFLCH-USP e especialista nas obras clariceanas. Nesta conversa, percorremos os
fios que unem linguagem, subjetividade e experiência, para costurar reflexões sobre a
literatura de Clarice.
Anita Meraki: Como você encontrou a Clarice Lispector e se encontrou nesse
lugar de pesquisa sobre ela?
Yudith Rosenbaum: Clarice é uma autora com quem muita gente tem o
primeiro contato na adolescência. O meu aconteceu no Ensino
Médio, quando li o conto Amor. Esse conto se tornou a base da
minha pesquisa. Achei aquele conto incrível. Fiquei, ao mesmo
tempo, perturbada e encantada. Acho que essas são justamente
as dimensões que Clarice provoca no leitor: encantamento,
estranhamento, perplexidade e uma espécie de identificação
desconhecida.
A gente não sabe exatamente o que nos toca na obra dela.
Pensei que precisava ler mais dela. Escolhi A paixão segundo
G.H, mas não consegui terminar. Devia ter uns quinze anos.
Era uma floresta muito escura para mim. O romance parte do
encontro de uma mulher com uma barata no quarto da empregada. Existe ali todo um
universo brasileiro. Primeiro o encontro com o outro de classe e, depois, o outro de
espécie.
Anos mais tarde, no doutorado, resolvi reencontrar a Clarice dos Contos e me reconciliar
com aquela de A paixão segundo G.H. Meu mestrado havia sido sobre Manuel Bandeira,
e eu queria estudar uma grande ficcionista para entrar no universo da prosa. Escolher
Clarice foi uma das decisões mais certeiras da minha vida, porque nunca mais me separei
dela.
Costumo dizer que Clarice não é uma
escolha. É um encosto.
Ela me persegue. Às vezes tento estudar
outros autores, mas sempre volto. Há
uma profundidade enorme na obra dela.
Ao mesmo tempo em que observa a
minúcia da vida cotidiana, familiar, social,
humana; ela alcança uma dimensão
universal. Clarice não é apenas brasileira,
é cosmopolita. Na época, eu nem pensava
na questão da mulher, eu queria entender
o ser humano. E era para isso que Clarice
me chamava.
O homem, a mulher, a criança, o
adolescente, todas as idades. A
Clarice fala de todas as idades.
Meu primeiro curso foi Psicologia, mas,
apesar de sempre ter me facinado esse
mergullho na subjetividade, percebi que
meu lugar não era na análise.
A Clarice constroi a interioridade de
maneira muito natural. Você entra no
fluxo de consciência da personagem, nessa
associação livre, sem nem ver. Acho que
foi assim que percebi que meu lugar era em
salas de aula.
Ao explorar a vida de Lispector, é possível
ver que ela existiu em vários lugares.
Nascida na Ucrânia, logo cedo se mudou
para Recife e depois para o Rio de Janeiro.
Além de ter sido casada com Maury GurgelValente, um diplomata, profissão em que
viagens e mudanças são recorrentes.
AM: Como você percebe esse
nomadismo nas obras da Clarice?
Você se identifica com essa vivência de
mudança constante?
YR: Sempre morei em São Paulo, mas minha família também é judia e saiu da Ucrânia.
Enquanto a família da Clarice foi para Recife, a minha veio para São Paulo. Meu bisavô morreu
durante a Guerra Civil Russa e minha avó chegou ao Brasil como refugiada. Porém só percebi
recentemente essa identificação. Hoje entendo que existe um vínculo profundo com essa
experiência do exílio e do deslocamento que podem ter me motivado a conhecê-la melhor.
Clarice viveu esse nomadismo durante toda a vida, mas acho que seu olhar estrangeiro não
nasce apenas dessa condição. Ela chegou muito pequena ao Brasil, praticamente cresceu em
português. Nunca chegou a falar russo ou ucraniano; ouvia principalmente o ídiche.
Mas ainda é extraordinário o que ela fez com a língua portuguesa.
Guimarães Rosa, por exemplo, transforma a matéria verbal, inventa palavras, brinca com
o significante. Enxadachim, espadachim, o herói, junto à enxada, para mostrar a grandeza
dentro de um trabalhador mineiro.
Já Clarice faz outra operação, ela trabalha com a sintaxe e a semântica.
Ela escreve alegria difícil, náusea doce. Grandes antíteses, com
uma aproximação de palavras que normalmente não estariam
juntas. Pontuações inusitadas. Ou até cria imagens como: “Que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias?”.
Para mim, ela reorganiza completamente nossa percepção da linguagem.
Em A fuga, por exemplo, a simples retirada de um adjetivo,
“Antes eu era uma mulher casada; agora sou uma mulher”, já
transforma a identidade da personagem.
Clarice olha para aquilo que nós já naturalizamos e consegue
fazê-lo parecer novo. Um cardápio, um ovo sobre a mesa,
qualquer objeto pode se transformar em mundo.
AM: Os textos da Clarice são muito autobiográficos, mas
ainda assim muito ficcionais. Como você acha que essa
construção de memória e imaginário nasce?
YR: A resposta está, entre outros lugares, em Freud. A grande
descoberta dele foi mostrar que a memória também é ficção.
Ela não funciona como um álbum de fotografias congeladas.
Não buscamos uma imagem intacta do passado; a memória é
dinâmica. Mistura temporalidades, reorganiza acontecimentos
e desloca experiências. Muitas vezes fazemos isso para nos
proteger de lembranças difíceis. Esses mecanismos são inconscientes e atravessados pelo
desejo. Por isso memória e desejo estão tão próximos.
Não é por acaso que Mnemosine,
na mitologia grega, é a mãe das musas.
A memória gera criação porque já nasce atravessada pela imaginação. Aristóteles dizia algo
semelhante no Tratado da Reminiscência, ao aproximar memória e imaginação como faculdades
inseparáveis.
Quando Clarice escreve Restos do carnaval, a memória aparece justamente como resto:
fragmentos que sobrevivem e vão sendo tecidos ao longo da vida.
Escrever também é tecer.
AM: Em Cem anos de perdão, Clarice fala de uma menina
pobre que invade os jardins das casas ricas para roubar
rosas e pitangas. Como você vê essa relação entre memória
e desigualdade social?
YR: Às vezes ficamos tão fascinados pelo olhar da Clarice que
esquecemos o contexto social em que ele está inserido. Ela
aproxima tanto o olhar das coisas que percebe detalhes quase
invisíveis. Foi com Clarice, por exemplo, que percebi que a
barata tem boca.
Mas Cem anos de perdão também retrata uma
sociedade profundamente desigual. Estamos falando
do Recife dos anos 1930. A menina invade aqueles
jardins porque deseja uma rosa, uma pitanga. É
uma transgressão movida pelo desejo de beleza e
pertencimento, mas que também atravessa fronteiras
sociais.
Essa dimensão aparece de forma ainda mais explícita
em Mineirinho. Clarice foca na violência policial e os
treze tiros que acertaram o criminoso, ao invés de
atentar-se aos crimes cometidos.
Existe uma dimensão profundamente social em sua
obra, mas ela aparece por dentro.
O social está na subjetividade das personagens. Por isso ela não escreve como Jorge Amado, Graciliano
Ramos ou Rachel de Queiroz. No lugar de uma denúncia
direta, transforma a linguagem e a experiência subjetiva
em formas de representar o Brasil.
AM: É como acontece em A hora da estrela. Ela conta a história de uma nordestina
vivendo no Rio de Janeiro, mas tudo passa pelo olhar do Rodrigo S.M. Macabéa
parece feliz.
YR: Ela parece feliz porque nunca chega a perguntar quem é. Existe aí uma alienação em
relação à própria identidade e também à realidade social. Mas Clarice consegue fazer dessa
precariedade uma potência.
Macabéa percebe o mínimo. Emociona-se com uma música, observa uma vitrine de
parafusos, pinta as unhas de vermelho. Rodrigo S.M., ao contrário, perdeu essa capacidade
de encantamento. Ele e Olímpico desejam grandeza; Macabéa encontra sentido justamente
no que parece insignificante. É aí que Clarice revela a humanidade da personagem.
AM: No fim, Rodrigo passa o livro inteiro
tentando compreender a vida de uma mulher
que ele nem conhece, em vez de viver a própria
vida.
YR: Exatamente. E é interessante lembrar que
a própria Clarice dizia ter encontrado Macabéa
numa feira de nordestinos no Rio de Janeiro. Veja
como a memória biográfica entra na ficção. Ela
é um dos fios da narrativa, mas, quando entra
no processo criativo, já está completamente
transformada.
AM: Ela deixa de ser um fio e vira uma tapeçaria.
YR: Exatamente.
Esse é o trabalho da criação literária.
A memória alimenta a escrita, mas, ao ser
transformada pela imaginação, torna-se outra coisa.
Rosenbaum diz ter mais repertório para pensar Lispector, quando comparado
ao primeiro contato ainda jovem. Porém, o encantamento e a perturbação
continuam com ela. Hoje, a professor consegue entender muito melhor como
para a autora as coisas nunca são uma só. Não existe apenas feio e bonito,
doce ou amargo. Existe uma mistura, onde todos nós vivemos.
Nós vamos construindo identidades, professora, mãe, isso ou aquilo. É o que
nos traz pertencimento e Lispector adorava isso. Os laços de família que
nos libertam, mas também nos aprisionam. É a própria autora quem usa a
expressão “corrente de vida”. Corrente é um fluxo que nos guia na vida, mas
também é um cadeado, aquilo que prende.
São nessas antíteses que surgimos e costuramos a memória, em
meio a ficção de uma lembrança e a esperança de uma realidade.
A memória, ao contrário do que imaginamos, não é o passado resgatado, uma história
contada sempre da mesma maneira e muito menos uma narrativa fidedigna de algo que já
deixou de existir.
A memória é, na verdade, uma construção exclusiva do presente, fruto de
um processo de feição adaptativa, fluido, mutável e sempre maleável às dinâmicas sociais1.
Pode-se dizer, e facilmente observar, que a memória é fruto de uma gestão, com plena
capacidade de forjar e manipular narrativas em detrimento de outras, silenciadas ou apagadas.
Quando nos debruçamos sobre os mecanismos que selecionam e reproduzem a memória,
inevitavelmente esbarramos nas instituições que a legitimam. Museus, arquivos e políticas de
preservação não apenas guardam o passado, mas também o delimitam, tornando visíveis as
narrativas que desejam perpetuar. A escolha do que deve ser incluído ou excluído reflete uma
hierarquia social, pois é nesses espaços que a memória deixa de ser apenas uma experiência
difusa e passa a ser reconhecida como patrimônio, muitas vezes a partir da validação de
órgãos públicos que determinam o que deve ou não ser preservado.
Foi a partir dessas inquietações que me aprofundei na pesquisa sobre casas-museus de
mulheres, buscando compreender quais trajetórias femininas, tantas vezes apagadas,
conseguiram ascender e se firmar na esfera cultural brasileira. Mas o que são casas-museus?
Segundo Paulo Eduardo Barbosa, doutor em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP, elas não
apenas transmitem as histórias e os enredos dos homenageados em seu acervo, mas também
colocam em discussão modos de morar e a conformação das cidades no fenômeno urbano2.
Mas como um espaço projetado originalmente para uso doméstico pode ser reconfigurado
para atender às demandas de uma instituição de uso público ou aberta à visitação? Soma-se a
isso o desafio de tratar o acervo da casa de modo a recontar as histórias de seus antigos
habitantes sem recorrer a representações caricatas ou desprovidas de rigor documental e
histórico3.
Essas reflexões ganham novos contornos quando articuladas à presença feminina, tanto na
condição de figuras homenageadas quanto pela associação recorrente entre o universo
doméstico e o feminino.
As casas-museus de mulheres evidenciam a complexidade dessas
questões, na medida em que a construção da memória se cruza com disputas em torno do
espaço privado, da visibilidade de narrativas femininas na história cultural.
A partir de um levantamento inédito de casas-museus de mulheres no Brasil, observei um
centramento na excepcionalidade das trajetórias, com foco em mulheres específicas que se
destacam como “precursoras” ou “à frente de seu tempo”. Isso se traduz em duas casas que
visitei: a Casa do Sol – Instituto Hilda Hilst, em Campinas, e a Casa Ema Klabin, em São
Paulo.
Tombada em instância municipal, o antigo lar de Hilda Hilst tem seu valor patrimonial
fortemente ancorado na vida e na consagração da autora no campo literário. Com uma obra
que costura poesia, prosa e teatro, marcada pela experimentação formal em temas ligados à
sexualidade, religião e morte, Hilst passa a se dedicar integralmente à literatura a partir de sua mudança, em 1966, para a Casa do Sol. É nesse espaço que produz grande parte de sua obra e
fazendo da casa um ambiente de convivência intelectual, frequentado por artistas, escritores e
estudantes, configurando a casa como núcleo ativo de produção cultural.
Pátio central na Casa do Sol – Instituto Hilda Hilst. Campinas/SP. Foto: Joana Fernandes, 2025.
Já a Casa Ema Klabin, no Jardim Europa, contemplada no perímetro de tombamento do
bairro em instância municipal e estadual, foi projetada e construída pelo engenheiro-arquiteto
Alfredo Ernesto Becker nos anos 50, encomendada para abrigar a coleção reunida por Ema
Klabin, uma mulher de elite, que levou uma vida associada ao mecenato das artes e da
cultura. A casa apresenta aos visitantes um grande acervo de telas, mobiliários e objetos
decorativos de importância histórica, assim como artigos de uso pessoal.
Casa Museu Ema Klabin. Jardim Europa, São Paulo/SP.
O desejo de musealização surgiu da própria Klabin no fim de sua vida. O seu modo de morar permanece
sendo referenciado em meio a escolhas curatoriais, a partir de seu dormitório, banheiro, e
outros cômodos da casa, permitindo que o visitante, para além de observar os objetos
colecionados, tenha contato com um modo de vida associado às elites paulistanas da segunda
metade do século XX.
Esses dois exemplos (dos 35 casos analisados) são particularmente ilustrativos do perfil
predominante das mulheres homenageadas em casas-museus no Brasil.
São artistas, intelectuais ou mulheres de elite, narradas a partir da ideia de excepcionalidade, pioneirismo
ou distinção. Além disso, ambas as casas são salvaguardadas pelo tombamento, evidenciando
que a materialidade das edificações e suas tipologias arquitetônicas também são consideradas
dignas de preservação.
Ainda que sejam trajetórias extremamente relevantes e instituições culturalmente ricas,
capazes de suscitar reflexões importantes sobre o feminino, a pesquisa exigiu um
deslocamento crítico do olhar. Tornou-se necessário questionar por que são justamente essas
trajetórias que alcançam legitimidade e visibilidade, enquanto tantas outras permanecem à
margem.
Onde estão as memórias de mulheres periféricas, pobres, negras ou vinculadas a
formas populares de habitar e produzir cultura? O que busquei ao longo desse tempo foi
interpretar a memória como um campo de disputas, marcado por escolhas que definem quais
narrativas serão lembradas e transmitidas às gerações futuras, e quais seguirão sendo
apagadas ou silenciadas.
1 Meneses, U. T. B. de. (1992). A História, Cativa da Memória? Para um Mapeamento da Memória no Campo
das Ciências Sociais. Revista Do Instituto De Estudos Brasileiros, 34, 9-23.
2 BARBOSA, Paulo Eduardo. Tempo: casa-museu e cidade. Tese (Doutorado em Arquitetura) – Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.
3 YOUNG, Linda. A woman’s place is in the house… museum. Open Museum Journal, v. 5, p. 1-24, 2002.
Tudo passa. Vontades, brinquedos, roupas, bens, paixões, sonhos: tudo passa,
inevitavelmente. Seja por conta de um ocasional desgaste na vida, seja pela chegada arbitrária
da morte. Por outro lado, a noção de que nada podemos reter nas mãos nos faz buscar
maneiras de conservar momentos e sentimentos.
Assim como um ourives, cravejamos os instantes brilhantes na prata do tempo, guardando cada joia como a herança de uma avó
milionária. São esses amuletos que dão o contorno da nossa personalidade e preenchem nossa
vida com propósitos e objetivos. Dentre eles, uma das formas criadas pelos seres humanos
para construir e armazenar memórias é a música.
Agora quero contar uma história a vocês. Tinha um garoto na minha sala do ensino médio
que não ligava para música, dizia que não fazia falta na sua rotina. O nome dele era Rodrigo.
Peguei-o na mentira quando numa festa da escola o vi soltando a voz em Pense em Mim, na
gravação da dupla Leandro e Leonardo de 1990. Pra mim, era incoerente alguém que não
ligasse para música soubesse a letra completa de uma. Para conseguir tal façanha, ele tinha
que ter ouvido aquela canção algumas vezes até conseguir decorar. Pensando bem, não me
surpreende: Rodrigo era um menino dedicado.
Como ele, muitas pessoas se entregam às histórias gravadas em canções. Se você desligasse o
fone de ouvido e prestasse atenção nas pessoas à sua volta, perceberia como algumas deixam
escapar preciosas melodias enquanto esperam o ônibus ou andam pela calçada. Não por
acaso, a construção da música popular, e posteriormente da indústria musical, se baseia em
uma lógica comunicacional de extração das coisas do espaço-tempo e na remodelagem delas
em novos objetos. Objetos como os anéis e os brincos, pois os compositores nada mais são do
que ourives do som e/ou da palavra. Logo, quando uma pessoa cantarola no metrô, é como se
aquele material sonoro retivesse no presente uma joia do passado.
Mas vamos lá: meu amigo Rodrigo não estava tentando convencer ninguém dos seus dotes de
Don Juan no momento em que bradou “em vez de você ficar pensando nele”. O que ele
provavelmente expressou foi uma identificação com a personagem da canção, que sofre ao
não ser valorizada por quem ama. Ele poderia estar pensando em seu pai, seu irmão, ou até
mesmo na sua professora: não importa. Uma canção é boa para o ouvinte quando se adequa à
sua realidade, tanto faz qual foi a intenção de sua criação.
Há alguns dias, mais especificamente em 25 de fevereiro, seria aniversário de George
Harrison.
Guitarrista e cantor inglês, o ex-membro da banda The Beatles faleceu em 2001 e
foi homenageado no ano seguinte por amigos e parceiros de música. O resultado foi um
concerto enorme, que deu origem a um DVD e a um álbum duplo. Dentre os clássicos de
quase quatro décadas de carreira, o momento mais tocante é a canção que fecha o espetáculo.
I’ll See You In My Dreams é uma composição de Isham Jones e Gus Kahn, mas teve sua
primeira gravação de destaque com Django Reinhardt e Stéphane Grappelli em 1939. Django
e Stéphane eram uma dupla incrível. Tinham um suingue e uma velocidade que contrastava
com seu repertório melancólico característico — sendo Reinhardt sempre a grande estrela.
Cigano nascido na Bélgica, viveu em Paris durante a ocupação nazista da França. Em
constante perigo, carregava em suas obras o peso da violência contra seu povo e, embora a
sua versão de I’ll See You In My Dreams seja instrumental, é possível perceber a história da
letra de Gus Kahn: alguém se consola dos problemas do mundo por meio da lembrança da
pessoa amada. Ela não está mais por perto, mas ele tem certeza de que vai encontrá-la nos
seus sonhos — e esse encontro resolverá tudo. Para Django, essa era a sua realidade; famílias
afastadas por leis bárbaras que alimentavam a memória do amor como forma de resistência.
63 anos depois, Joe Brown, músico e amigo pessoal de George Harrison, escolhe a mesma
canção para encerrar o espetáculo-celebração da vida de George. Aqui, a música assume
outro lugar, com um homem que, ao cantar a saudade de seu amigo, preenche os versos
românticos com novos significados.
Por exemplo, o trecho que evoca “lips that once were
mine” (“lábios que um dia foram meus”) se encaixa perfeitamente no sentimento de
identificação do público com a conhecida voz do homenageado; uma voz que deixa de estar
fisicamente presente mas nunca se apagará da lembrança de quem um dia foi impactado por
seu brilho.
Apesar de virem de contextos completamente diferentes, Rodrigo, Django e Joe sentem a
mesma coisa com as canções: saudade. Esse estado de presença da ausência é essencial para
gerar identificação. Joe sentia o falecimento de um amigo. Django sofria pelas perdas do seu
povo. Já Rodrigo, se não foi por um caso misterioso de amor não-correspondido, foi o prazer
de se entregar às memórias despertadas por Pense em Mim que o fez cantar naquele dia.
Desse jeito, vão-se naturalmente as coisas todas da vida. Talvez podemos até esquecer dos
momentos de dor, dos amores e dos perigos de nossa existência. Porém, para construir uma
canção, cada sentimento deve ser encarado corajosamente até que seja bem lapidado. Suas
arestas, arredondadas. Seus arranhões, consertados. As peças encaixadas, para que a memória
original sirva de substância para novas histórias.
É como se a música pudesse cristalizar o
momento presente de cada ouvinte em verdadeiros diamantes eternos.
fotografia do filme Aftersun dirigido por Charlotte Wells.
“Há uma rachadura em tudo — é assim que a luz entra.”
Recentemente, me deparei com
essa citação e não consigo tirála da cabeça. Evoca uma imagem
poderosa e pungente que atravessa
minha percepção da vida ao redor,
conectando-se ao conceito japonês de
kitsugi: a beleza das coisas quebradas.
Há algo bastante reconfortante,
especialmente em tempos em
que a esperança parece difícil de
encontrar, na celebração das próprias
feridas. Essa citação desperta em
mim uma fé cega de que, mesmo
fraturado, ainda é possível acolher
os sopros de ar fresco que a vida
deixa passar por entre as frestas.
Aftersun (2022), da escocesa Charlotte
Wells, transformou a estreia da cineasta
em uma carta íntima e profundamente
pessoal ao seu passado como filha. Aos
dezesseis anos, Wells perdeu o pai;
uma figura intermitente, mas nunca
completamente ausente de sua vida,
segundo as próprias lembranças.Inspirada por uma fotografia antiga da sua infância,
começou a escrever o roteiro do filme como uma forma
de completar aquela imagem dentro da compreensão
que possuía do tempo que passaram juntos. É uma
tentativa de realização e de reconciliação com uma
realidade que ela jamais conheceu plenamente, cujas
nuances só pôde perceber ao atingir a mesma idade
que seu pai tinha quando morreu. A partir de suas
memórias pessoais, Wells constrói uma ponte entre o
privado e o universal. Ao retornar às lembranças em
busca de respostas para as lacunas do presente, ela
tenta compreender quem seu pai realmente foi e cria
um espaço de identificação para muitos espectadores.
Assim como as fissuras do kitsugi, os personagens
de Aftersun nos mostram que o entendimento
nem sempre surge na totalidade de algo, mas da
interpretação dos diferentes tons de luz que emergem
de uma nova configuração marcada pela fratura.
O filme acompanha um pai, Calum (Paul Mescal),
e sua filha, Sophie (Frankie Corio), durante as
férias de verão na Turquia, durante os anos 1990.
Paralelamente, vemos Sophie já adulta, vinte
anos depois daquele verão, tentando reconstruir
a identidade de um pai que percebeu nunca ter
conhecido.
Essa busca, realizada principalmente a partir de fitas VHS, o fio condutor de
toda a narrativa, introduz a ideia da memória como algo incompleto. Algo
que, à medida que a vida avança, ganha novas interpretações moldadas pelas
diferentes versões de nós mesmos que nos tornamos ao longo do tempo.
A memória nem sempre é um registro fiel.
Você já percebeu o quanto suas lembranças mudam com o passar dos
anos? Já notou como guardamos detalhes aparentemente inúteis sem
compreender o lugar que ocupam dentro de nós? Todas as respostas
possíveis para essas perguntas são reveladas em Aftersun: Cada cena
cotidiana, à primeira vista banal, torna-se um testemunho de como tudo
adquire peso quando observado pelo olhar adulto. Os pequenos detalhes
que cercam a Sophie criança transformam-se em respostas provisórias
que ela oferece a si mesma vinte anos depois.
As memórias, assim como a montagem do filme, não são lineares. Não
há nada de acidental nos saltos, cortes ou fade-outs da montagem;
eles reproduzem o fluxo do pensamento, que constantemente avança
e recua, se demorando em certos momentos antes de se dissolver em
outros. Em vez de seguir uma lógica clássica de continuidade, o filme
opera por meio de um fluxo associativo e afetivo, no qual as imagens
surgem em resposta a gatilhos emocionais. Isso cria uma sobreposição
temporal em que diferentes momentos coexistem e se entrelaçam. Os
flashbacks raramente são demarcados com clareza, dissolvendo-se em
outras linhas temporais sem fronteiras definidas. O resultado é uma
oscilação constante entre tempos distintos, na qual a montagem passa a
funcionar como o próprio mecanismo da memória.
Essa ideia é reforçada também pela composição visual do filme. Ao longo
das cenas das férias, Calum aparece frequentemente enquadrado através
de espelhos, mesas de vidro, telas de televisão e outras superfícies
reflexivas, como se a versão dele preservada na memória de Sophie
fosse apenas um reflexo parcial de quem realmente era. Assim como
a própria memória, essas imagens oferecem acesso ao personagem ao
mesmo tempo em que o ocultam, sugerindo que nem Sophie nem o
espectador são capazes de compreender plenamente aquela vida interior.
Além disso, é importante destacar a presença constante da água, que pode
ser entendida como uma metáfora visual da mente. A água flui, nunca sendo
completamente capturada. Ao longo do filme, testemunhamos tomadas
cativantes do movimento da água, bem como a mão de Sophie tentando
quase acariciar piscinas e mares azuis. A água reflete a maneira como as
lembranças escapam por entre seus dedos, alterando sua forma de acordo
com a maneira como são tocadas e com as intenções depositadas sobre
elas. Aftersun reconstrói o passado como algo não muito diferente da
água: instável e em constante transformação. Como em tantas narrativas,
a perspectiva é central para a compreensão da história. No filme, tudo é
filtrado pelo olhar da Sophie adulta, o que implica uma reinterpretação
completa de cada cena vivida durante aquele verão da infância.
A história que nós, espectadores, testemunhamos não é exatamente “o que
aconteceu”, mas aquilo que sua versão mais jovem foi capaz de recordar. Isso
implica que a aparente rotina diária de seu pai durante a viagem adquire uma
mensagem totalmente nova — gestos, silêncios, mudanças de humor — que
Sophie adulta busca remontar na tentativa de traçar a verdadeira identidade
de Calum. No entanto, essa mesma distância temporal e emocional evidencia
a impossibilidade de compreender tudo com absoluta certeza.
“Lembrar não é apenas revisitar o passado; É revivê-lo.
A memória é um ato de presença, que só permanece vivo enquanto é experimentado”
Nós, incluindo a própria filha, jamais conhecemos verdadeiramente
quem Calum foi, mas sim a versão lembrada. Aquela construída
por memórias e fitas de vídeo do verão que passaram juntos.
As gravações desempenham um papel fundamental ao longo
da narrativa. Elas oferecem uma sensação de autenticidade e
confirmação às lembranças de Sophie. No entanto, as imagens
são limitadas, incapazes de capturar a dimensão emocional. É
a Sophie adulta que, com base nesses fragmentos delimitados
da realidade, decodifica o material a partir de seu próprio
conhecimento pessoal, adquirido ao longo do amadurecimento.
Da mesma forma, as cenas do “espaço escuro” possuem um impacto
decisivo na memória de Sophie. Diferentemente do restante da
narrativa, que acompanha a intimidade cotidiana, essas sequências
surgem como fragmentos desorientadores e profundamente
sensoriais. Elas acontecem em um espaço indefinido, quase
inteiramente escuro, iluminado apenas por flashes intermitentes
de luz. Dentro dessa escuridão, figuras aparecem e desaparecem em
breves instantes de visibilidade antes de serem novamente engolidas
pela sombra. Ao longo do filme, vemos repetidamente essas cenas
vagas e frenéticas, que evocam boates ou limbos mentais e parecem
interromper a lógica narrativa da obra. No entanto, sua presença é
totalmente deliberada.
Ao romper com o realismo predominante no restante do filme, elas representam justamente o elemento mais verdadeiro: a tentativa fracassada de Sophie
de se conectar com o pai. Essas sequências apontam de forma dolorosa para a
impossibilidade de acessar plenamente o passado; de extrair qualquer certeza
definitiva dos momentos vividos. Nelas, a música e o som desempenham um
papel fundamental, funcionando como gatilhos de memória e privilegiando a
absorção e a distorção sensorial em detrimento de uma narrativa concreta. A
memória surge menos como uma imagem estável do que como uma atmosfera.
Às vezes, quando o esquecimento nos atinge e nos deixa diante de um beco
sem saída nas avenidas do subconsciente, é a menor das sensações que se
transforma em chave. Talvez não nos lembremos da conversa que tivemos
ontem no ônibus, do horário em que chegamos em casa hoje ou da mensagem
embriagada que enviamos alguns noites atrás; mas o perfume do garoto
que partiu meu coração, o rosto da minha melhor amiga sempre que escuto
Wonderwall ou o sabor do prato que minha avó costumava preparar tornam-se o meu fio de Ariadne — permitindo não apenas escapar do Minotauro, mas
encontrar o caminho de volta ao centro oculto de mim mesma.
Tendemos a recordar atmosferas mais do que explicações. O passado se
apresenta muito mais como um sentimento do que como uma sequência
lógica de acontecimentos. É nessa linha que encontramos o clímax do
filme: a cena ao som de Under Pressure. Aqui vemos uma das formas mais
diretas e vulneráveis de expressão de Calum. Tudo acontece através dos
gestos; seu corpo fala e revela aquilo que ele jamais conseguiu colocar
em palavras. Ao som do refrão doloroso, mas discretamente esperançoso:
“This is our last dance (…) this is ourselves”
a sequência adquire um significado devastador. Vemos uma sobreposição de
imagens em que Sophie e seu pai se abraçam e, em seguida, sendo empurrados
para lados opostos, afastando-se. Sophie tenta alcançá-lo, mas ele escapa
repetidamente de seu alcance. Essas justaposições anunciam uma despedida:
o último momento de conexão antes de uma perda irreversível. Tudo
acontece envolto em uma névoa de confusão, moldada pelos movimentos
rápidos da câmera e atravessada pelas sequências do “espaço escuro”. As
memórias de Sophie estão sendo agitadas, incapazes de permanecer imóveis.
Para o espectador, esse momento cristaliza a tragédia central do filme: o
amor nem sempre é suficiente para atravessar a distância que existe entre
duas pessoas. Os fantasmas de Calum parecem conduzi-lo a um destino do
qual nem Sophie nem o espectador consegue resgatá-lo. Isso transforma o
que parecia ser apenas uma dança em um grand finale. Como sugere a própria
música, aquele é o último momento que compartilham. A cena captura a
ruptura silenciosa entre os dois, mas também a despedida da infância de
Sophie, marcada pela confusão que permanece quando o amor é lançado em
um vazio incapaz de devolvê-lo.
Às vezes, o que mais dói é não ter tido a oportunidade de se despedir.
A morte é um fim universal, mas ela não impede outra forma de
permanência: aquela construída na memória dos outros. Enquanto houver
alguém para contar nossa história, continuaremos existindo. Talvez
Shakespeare estivesse certo em Hamlet e, enquanto tivermos nosso próprio
Horácio — o companheiro que sobrevive ao protagonista e se torna a voz
de seu legado — todos poderíamos, cada um à sua maneira, encarnar
Hamlet quando a nossa hora de cruzar o limiar da memória chegar.
“Lembra-se de mim”, pede o protagonista da peça homônima quando seu
momento chega; porque, para ele, o resto é silêncio. Aftersun é a prova de
que, enquanto houver uma tentativa de lembrar, de contar histórias e fazê-las
viver novamente, a vida não terá sido perdida.
O fim não será definitivo.
Antonio Candido, ao pensar a formação da literatura brasileira, chegou à formulação de que a
literatura atua sobre o indivíduo com a mesma força das instituições, da família e da religião,
agindo, porém, de um jeito mais sorrateiro, e por isso, mais duradouro. Aquilo que entra pela
leitura se instala sem que o leitor perceba que está sendo formado. Entra como experiência,
como emoção, como identificação com um personagem que parece impossível de ser real, mas
que mesmo assim soa como a pessoa mais verdadeira que você já encontrou.
Em seu ensaio O Direito à Literatura, Candido coloca a literatura como condição para a humanização, ao lado
do alimento e da moradia.
Para ele, privar alguém de literatura é uma forma de violência real,
assim como perguntar como os clássicos constroem uma identidade nacional é, no fundo,
perguntar como um povo aprende a se reconhecer e se humanizar coletivamente.
A literatura brasileira nasceu com a tarefa de inventar uma nação que ainda estava se
descobrindo, ao mesmo tempo em que escondia o que havia debaixo do projeto. Candido
chamou de “sistema literário” o conjunto de autores, obras e públicos que se reconhecem
mutuamente e formam uma tradição viva. A dificuldade foi que esse sistema, no Brasil do
século XIX, precisou ser construído sobre uma fundação rachada. A língua era portuguesa. Os
modelos eram europeus. A elite intelectual olhava para Paris como espelho do que desejava
ser, enquanto o Brasil real, o Brasil da senzala e do sertão e do cortiço e da caatinga, existia à
margem de qualquer projeto literário que quisesse falar sobre ele sem reduzi-lo ao pitoresco.
Foram os autores que souberam habitar essa contradição com honestidade, sem desviar o
olhar, que viraram clássicos. Os outros ficaram como curiosidade histórica.
Na época, Machado de Assis provavelmente foi o mais lúcido sobre a questão, e por isso, o
mais subversivo. Ele entendeu que a identidade que a elite brasileira queria construir era uma
ficção conveniente, e que as ficções convenientes precisam ser desconstruídas por dentro, com
as próprias ferramentas que as sustentam. Então, pegou o romance, gênero da burguesia
europeia, e o usou para mostrar como a burguesia brasileira era uma cópia torta do modelo
original europeu, uma performance do refinamento que o próprio refinamento não levaria a
sério.
Brás Cubas narra do além porque da vida não poderia falar sem parcialidade — e do
além pode dizer tudo o que os vivos têm interesse em calar. Capitu olha pelo canto do olho
porque sabe que olhar de frente é um privilégio que a narrativa de Bentinho nunca lhe
concedeu, e assim Dom Casmurro ensina como o poder constrói versões da realidade que se
tornam definitivas pelo simples fato de quem as narra tem autoridade suficiente para não ser
questionado.
A culpa de Capitu é decidida por quem detém a palavra. No Brasil, quase
sempre foi assim.
Vale lembrar que quem escrevia era um homem racializado, descendente de escravizados,
epiléptico, gago, frequentador dos mesmos salões que o excluíam pela porta dos fundos.
Machado aprendeu cedo que o Brasil era, na verdade, dois países andando com o mesmo
nome.
Havia o Brasil dos sobrados e o Brasil das senzalas, e havia também o Brasil dos que
transitavam entre os dois sem pertencer completamente a nenhum, que era talvez o lugar mais
revelador, por expor, ao mesmo tempo, as ilusões de ambos.
A ironia machadiana nasce aí, dessa posição oblíqua (para usar suas palavras) que enxerga o que quem está dentro demais
não consegue ver.
Um leitor formado por Machado aprende a desconfiar dos narradores, e
desconfiar dos narradores é aprender a desconfiar do poder, que é talvez o exercício
intelectual mais necessário que existe e que nenhuma escola ensina com tanta eficiência.
Bom, mas se em Machado a linguagem é o bisturi que corta as aparências da elite, quando
trazemos o foco para o Nordeste dos anos 30, Graciliano Ramos a transforma na primeira
ferida da exclusão. Se o autor de Memórias Póstumas desconfia do excesso de retórica, o
autor de Vidas Secas expõe o abismo do silêncio forçado. Em Vidas Secas, Fabiano tenta
formular um pensamento e a frase se dissolve antes de se completar. As palavras foram
retiradas antes que ele chegasse, retiradas pela fome, pela seca, pelo coronel, pela acumulação
histórica de um país que decidiu que certas pessoas não precisavam de linguagem para existir.
Graciliano Ramos constrói seu argumento pelo que retira, mostrando que a pobreza vai fundo
na língua, que a opressão se instala onde é mais invisível e mais duradoura, e que o primeiro
confisco é sempre o das palavras.
É de se pensar que o próprio Graciliano foi preso sem processo durante o Estado Novo, em
1936, e passou quase um ano detido sem acusação formal. Dessa experiência nasceu
Memórias do Cárcere, publicado postumamente, ao mesmo tempo autobiografia e ficção,
testemunho e criação literária de primeira ordem. Graciliano escrevia de dentro da violência,
com o corpo que a violência havia passado por cima, e mesmo assim a prosa é contida,
precisa, sem o menor traço de sentimentalismo. A contenção é ela mesma uma resposta. O
Brasil que Graciliano construiu foi cortado da fotografia oficial. Não cabe no samba, nem no
folclore. Justamente por isso alcança uma profundidade que livros celebrativos raramente
atingem, pois a identidade de um povo também inclui o que esse povo reconhece, com
desconforto, que é, e não apenas o que ele orgulhosamente afirma ser.
A travessia desse Brasil real para um Brasil metafísico se dá pela mão de quem decidiu que a
linguagem precisava de um novo batismo.
Guimarães Rosa refez a língua por dentro, como quem reforma uma casa trocando as paredes enquanto as pessoas ainda dormem nos quartos.
Grande Sertão: Veredas carrega a extensão, a dúvida, o demônio que talvez não exista, mas
mesmo assim assombra. Riobaldo narra como quem reza, em círculos, voltando sempre ao
mesmo ponto para ver se desta vez a resposta vem diferente. O senhor, você que me ouve,
será que existe o diabo? A pergunta sobre o demônio é uma pergunta sobre o mal, a culpa, se
existe uma linha clara entre o bem e o erro, se a vida é feita justamente do material em que
essa linha não se sustenta.
A língua que Guimarães Rosa inventou vem de dentro da terra.
Mistura de arcaico e neologismo, de português e de fantasia, de sintaxe que dobra sobre si mesma e novas palavras
que parecem ter sempre existido. O autor estudou latim, grego, alemão, sânscrito, e jogou
tudo dentro do falar do sertanejo como quem tempera uma comida com ingredientes que
ninguém esperava que combinassem. O resultado soa oral e é profundamente literário, parece
regional e é universalmente compreensível na sua estranheza.
Depois de Rosa, o português passou a caber mais mundo.
Clarice Lispector quis saber o que acontece quando a linguagem tenta alcançar o que está
antes da linguagem. Nascida na Ucrânia, mas trazida para o Brasil ainda bebê, cresceu em
Recife e depois no Rio de Janeiro, carregando o português como uma segunda pele que,
paradoxalmente, era a mais verdadeira. Escreveu como alguém para quem a língua ainda
podia ser questionada, pesada, recusada, tentada de novo, o que produziu uma prosa que
parece sempre se aproximar de algo que a linguagem normalmente não alcança.
A Paixão Segundo G.H. começa no instante depois do horror, e vai para dentro em vez de ir
para a frente, escavando o que significa ter sido tocado por algo que desfez a versão de si
mesmo que se havia construída com tanto trabalho. G.H. mata uma barata e sua visão de
mundo racha. O resto do livro é o rachar se alastrando, a consciência tentando acompanhar o
dano. A Hora da Estrela, seu último romance, publicado no mesmo ano em que morreu, conta
a história de Macabéa, nordestina pobre no Rio de Janeiro, testemunhada por um narrador
masculino que confessa não entender a personagem que criou.
Essa confissão é também uma confissão do Brasil sobre si mesmo, a de um país que produz suas Macabéas sem ser capaz de
narrá-las, que as deixa morrer atropeladas sem jamais tê-las dado uma história que pudessem
chamar de sua. O que Clarice abriu no imaginário brasileiro foi a permissão de que a interioridade é assunto
literário legítimo, de que a consciência feminina tem direito à complexidade, de que uma
mulher pode ocupar trezentas páginas se perguntando coisas sem que o questionamento
precise chegar a uma conclusão para ter seu valor.
Em um país onde certas vozes historicamente não tinham direito de se estender, de se perder nos próprios labirintos sem
pedir desculpa pelo desvio, Clarice foi um gesto político disfarçado de literatura.
Partindo desse lugar, é notável como a literatura brasileira canônica do século XIX foi escrita
predominantemente por homens das elites urbanas do Rio de Janeiro. Quando ela pretende
falar do Brasil, fala de uma parte com a autoridade de quem fala pelo todo. O que o
imaginário popular fez, com uma sabedoria que a academia demorou a reconhecer, foi criar
seus próprios clássicos à margem desse projeto.
A literatura de cordel no Nordeste carregou por gerações a função que os romancistas do Segundo Reinado nunca alcançaram:, a de ser
lida, e cantada, por quem vivia o Brasil por baixo. João Grilo é um clássico. Lampião é um
clássico.
O clássico popular circula, dura, forma gente e nomeia o mundo sem precisar de
chancela universitária, e a identidade nacional real é feita do atrito e da sobreposição entre os
dois cânones, o oficial e o subterrâneo, que convivem no mesmo território, frequentemente
sem se ver.
Há governos que entendem isso antes de qualquer crítico literário, e é por isso que agem
sobre a cultura como quem age sobre um arquivo inimigo. Quando o financiamento das
universidades é cortado e institutos de pesquisa perdem orçamento, quando fundos de cultura
são esvaziados e ministérios dissolvidos, a identidade nacional se torna decorativa, feita de
símbolos que precisam de simplicidade para funcionar e que temem perguntas complexas.
Tais perguntas, no Brasil, moram exatamente nos clássicos que o projeto precisava que
ficassem esquecidos. Esse esquecimento tem função.
Um povo que perdeu os instrumentos com que se entendia fica mais vulnerável à versão que o poder quer que ele acredite sobre si
mesmo.
E é por essas e outras que os clássicos continuam sendo convocados mesmo quando as
condições para tal foram sistematicamente destruídas. Eles constroem Fabiano sem palavras e
toda a compreensão da pobreza linguística que seu silêncio traduz. Constroem Riobaldo
perguntando sobre o diabo e toda a compreensão de que a dúvida pode ser mais honesta do
que qualquer certeza. Constroem G.H. comendo a barata e toda a compreensão de que há
experiências que desmancham a identidade e empurram o sujeito para algo que ainda não tem
nome. Por fim, constroem Capitu olhando para o mar, e esse olhar permanece como pergunta.
Os clássicos sobrevivem porque são perguntas que cada geração reencontra sem ainda ter
resposta, e que a obrigam a procurar.
E começar a procurar talvez seja o único movimento que
faz uma nação crescer em capacidade de se enxergar com os próprios olhos, crescimento que
o tamanho e o discurso nunca garantiram.
Eu tento não pensar muito.
Mas às vezes, quando deito na cama ou tomo um longo banho, acontece. Me pego revivendo uma viagem que fiz quando era criança, uma das minhas primeiras recordações. Eu e minha família na praia, um picolé de uva e o momento que cai e ralei o joelho. Por mais que o machucado tenha doído, guardo como um dia feliz, pois estava nos braços daqueles que me amam.
A água quente do chuveiro contra minha pele me faz lembrar das lágrimas que senti na minha bochecha na última vez que disse adeus ao meu avô, e de todas as piadas bestas que ele me contava. Consigo até mesmo ver seu sorriso enquanto comia brigadeiro no meu aniversário de 15 anos.
Muitos me dizem que somos iguais e isso me aquece mais do que esse banho.
O shampoo é o mesmo que sempre usei. O cheiro me transporta para as inúmeras semanas que compartilhei com uma grande amiga durante a pandemia. Dias em que fingíamos ser musicistas, escritoras, fotógrafas e modelos — mesmo em um momento difícil, ao lado dela tudo parecia possível. Todos os nossos sonhos estavam a apenas um passo de distância e nem sabíamos.
Cresci e vivenciei muitos momentos.
Entre eles, um abandono. Já não tinha aquela que desembaraçava meu cabelo. Agora faço isso sozinha, e é bom poder sentir quão macios os fios são. Talvez sejam os pequenos detalhes que marquem o nosso dia a dia; por isso, ocasionalmente, me pego usando frases que ela usava ou escutando músicas que costumávamos dançar na sala de casa. Não sei se passo por sua cabeça ou se ela me apagou como todas as fotos que tínhamos juntas, mas isso não importa.
Ciclos acabam da mesma forma que canções, aulas, dias, banhos.
O vapor embaçou minhas ideias, assim como todos os vidros do banheiro, não consigo nem mesmo distinguir minha imagem no espelho.
Eu não acho que eu seja a pessoa que pode dizer o que deve ficar no passado e o que eu devo trazer junto ao meu coração, não quando a nostalgia me veste mesmo em momentos presentes. É permitido sentir saudades de uma festa universitária enquanto eu ainda estou bêbada dançando? Eu e meus melhores amigos gritando um pop qualquer em uma sexta à noite e depois estudando em uma terça normal. Um grupo com quem posso conversar e até rever quem sou. Aqueles de quem vou lembrar quando meus netos me perguntarem sobre minha juventude.
Mas hoje é domingo, então, decido passar um café e comer as panquecas de banana que têm o mesmo sabor de acordar em outro país, conversando em uma mistura estranha de francês, português, italiano ou espanhol, não fazia diferença, todas línguas latinas são a mesma. Ocasionalmente também falávamos em inglês. Mas, no fim, nenhum idioma é capaz de descrever a beleza dos Alpes quando vistos da minha janela ou das pessoas que os observavam comigo. Cada momento, viagem e conversa que provei, gole por gole.
Uma experiência que me moldou para sempre.
Agora, vejo pela janela vários prédios, em cima da mesa meu livro favorito. Quando o li pela primeira vez, devorei. Hoje, já faz dias que não pego nele. Acho que estou aprendendo saboreá-lo, pouco a pouco, para que seu gosto não fuja de mim. Dessa vez, pretendo guardar cada detalhe, como se tivesse sido impresso na minha mente e não no papel.
Quero também imprimir um sorriso, cada detalhe, talvez até mesmo colocar na minha parede.
Poderiam ser seus olhos, suas mãos ou até mesmo a curva da sua cintura, desde que pudesse manter para sempre perto de mim. Mas, ao invés disso, abro o livro na página marcada com uma flor que ganhei alguns meses atrás. Está muito diferente do que um dia já foi. Aprendi que as flores, com o tempo, se inclinam em direção ao sol e crescem. A minha não. Ela se inclina em direção ao mar e se torna uma marca importante que muda todas as vezes que olho. Talvez seja seu charme ou a graça das lembranças, sempre únicas.
Eu tento não pensar muito, mas no fim é tudo que sou: memórias. Mas também tudo que nunca mais serei.
Em 2009, em Milão, a maior exposição sobre o Futurismo já realizada abriu na Itália, no
Palazzo Reale. Para marcar o centenário do movimento, organizaram a mostra Futurismo
1909-2009. Velocità + Arte + Azione (“Futurismo 1909-2009. Velocidade + Arte + Ação”),
que deveria ser a primeira grande comemoração e reconstrução do movimento vanguardista
italiano.1. A exposição tinha, porém, um pequeno problema: seu conteúdo parava com o fim
da Primeira Guerra Mundial. Certamente é preciso reconhecer que o conflito representou um
momento de ruptura para a vanguarda futurista, causando a morte de algumas das principais
figuras, sobretudo Umberto Boccioni e Antonio Sant’Elia. Mas por que o principal evento de
comemoração do Futurismo deveria deixar de lado, ou melhor, apagar da memória, metade
de sua história enquanto corrente artística?
Para responder a essa pergunta, seria conveniente primeiro traçar uma breve linha do tempo
do Futurismo.
Em 20 de fevereiro de 1909, foi publicado em Paris, no jornal LE FIGARO, o Manifesto do
Futurismo, escrito por Filippo Tommaso Marinetti. Desde o início, ficam claras as
aspirações vanguardistas do movimento. O termo “vanguarda” provém do vocabulário militar
italiano. Como afirma o dicionário Treccani, trata-se da unidade que precede as tropas em
movimento, com finalidade de segurança. No início do século XX, porém, esse nome passou
também a designar movimentos artísticos que defendiam novas formas de expressão em
contraste com a tradição, sublinhando seu caráter impetuoso e, por vezes, violento. No
manifesto são estabelecidos os pontos-chave que distinguem o Futurismo: o amor pela
tecnologia, pela velocidade e pela inovação, a violência e o ódio a qualquer forma de
passadismo. Marinetti, pai do Futurismo, conclui o manifesto afirmando:
“É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e
incendiária, com o qual fundamos hoje o FUTURISMO, porque queremos libertar este país
de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.”2
À época, a Itália atravessava um momento de rápida transformação e muitos se aproximaram
do Futurismo. Seu cenário de estreia foi Milão, cidade símbolo da inovação tecnológica e da
revolução industrial que atingiu o país, onde a vanguarda italiana viveu sua primeira fase com
grande efervescência, que estabeleceu uma ligação entre arte e todos os aspectos da vida. São
justamente os anos 1910 que representam o momento mais experimental e intenso da corrente
artística, o aclamado Primeiro Futurismo. É entre 1909 e 1915 que são publicados diversos
manifestos futuristas, como o Manifesto da reconstrução futurista do universo, de Depero
e Balla (1915).
Com a chegada da Primeira Guerra, o movimento sofre uma ruptura e inicia sua nova era: o
Segundo Futurismo. O conflito levou à morte de diversos membros e à dispersão dos ideais
de muitos artistas, mas ainda deu, sem dúvidas, vida a uma nova onda de estudos dedicada
majoritariamente à arte mecânica e ao culto às máquinas. Podemos reconhecer o fim da
trajetória futurista apenas com a morte de seu idealizador e porta-voz, Filippo Tommaso
Marinetti, em 1944.3
Mas o que aconteceu durante o Segundo Futurismo para que, em 2009, os curadores da
exposição milanesa a suprimir mais da metade da história do movimento? O que ainda hoje
torna tão incômoda a memória da única grande vanguarda italiana?
Parte disso está no fato de
que algumas das características fundamentais do Futurismo, como a exaltação da virilidade e
a glorificação da violência, foram progressivamente apropriadas pela ideologia fascista
nascente.4
É necessário, no entanto, redimensionar a atitude do Primeiro Futurismo. Em
seus primeiros anos, muitos futuristas demonstravam maior afinidade com a ideologia
anarquista do que com a exaltação do Estado, base do recém-nascido totalitarismo.
Durante muitas décadas ocorreu uma espécie de identificação entre a ideologia fascista e o
movimento futurista, tornando a corrente artística um tema incômodo. No entanto, essa
associação entre Fascismo e Futurismo, que permitiu uma correspondência substancial entre
os dois na opinião comum e que ainda hoje gera comentários como “os futuristas eram todos
fascistas”, funciona na direção oposta: não são os futuristas que adotam a cultura fascista, mas
sim o fascismo que se apropria de parte da teoria futurista.
Para observar na prática o processo de lenta apropriação e purificação do Futurismo de seus
aspectos mais subversivos, podemos analisar um exemplo concreto: Síntese futurista da
guerra (1914) e Síntese da guerra mundial (1918).
A primeira é fruto do trabalho de Marinetti, Boccioni, Carrà, Russolo e Piatti, imediatamente
após uma manifestação interventista5 realizada em Milão. Modelo que depois seria retomado
por El Lissitzky em 1919 para criar o cartaz Golpeie os brancos com a cunha vermelha.
Observamos, então, um grande triângulo contendo oito nações e suas respectivas virtudes,
convergindo para a palavra FUTURISMO, que aponta e combate o PASSADISMO. Fora do
triângulo encontram-se todas as noções contra as quais os futuristas lutavam, identificadas
com a Alemanha e a Áustria: lemos termos como clericalismo, papalismo e até cretinice.
Já ao observar a Síntese da guerra mundial, a diferença é evidente. A eficácia comunicativa
e tipográfica do cartaz é reutilizada inteiramente em chave patriótica e nacionalista,
substituindo FUTURISMO por LIBERDADE e direcionando-a contra BARBÁRIE, em vez
de PASSADISMO. Além disso, o preto e branco é substituído pelas cores da bandeira
italiana. Embora esse cartaz tenha sido publicado na revista Il Montello em 1918,6 portanto
em um momento precoce demais para falar de fascismo (os Fasci Italiani di Combattimento,
movimento político que depois se transformaria no Partido Nacional Fascista, surgem apenas
em 1919), já é evidente a instrumentalização da estética futurista em chave nacionalista.
Para um estudioso das humanidades, o papel da memória na percepção da história é evidente.
A memória muda e transforma-se ao longo do tempo e, sem uma educação adequada sobre a
mesma, os riscos são enormes. A difusão de uma narrativa diferente da realidade será sempre
o maior deles. Na Itália, o afastamento do Fascismo e de tudo o que o cercava levou à
estigmatização equivocada de um fenômeno artístico historicamente mais complexo do que a
simples identificação com o Fascismo permitia enxergar. São muitas as dificuldades de
enfrentar uma memória comum amplamente difundida, de desmentir uma falsidade que se
confunde com a verdade histórica e de se afastar dos clichês. Talvez o caminho mais fácil a
seguir seria fazer vista grossa, escondendo tudo o que é incômodo como o pó debaixo do
tapete, mas os resultados de uma operação como essa seriam devastadores.
Foi esse tipo de raciocínio que levou ao apagamento do Segundo Futurismo na mostra
Futurismo1909-2009. Velocità + Arte + Azione. Portanto, nossos esforços como estudiosos
devem nos conduzir à descoberta de uma realidade histórica não corrompida, à restituição de
uma memória coerente com aquilo que foi a realidade e, sobretudo, à reconstrução do
processo que levou à formação da memória que possuímos hoje.
No caso do Futurismo, poderíamos falar de uma instrumentalização política da memória, que
ainda hoje ocorre e que demonstra, por si só, a importância do papel desempenhado pela
história da arte na sociedade.
De fato, portanto, a memória pode alterar a história da arte e
cabe aos estudiosos trazer à luz os processos e os mecanismos por trás da criação dessas
memórias.
1 R. Vanali, fino al 7.VI.2009 Futurismo 1909-2009 Milano, Palazzo Reale in “Exibart”, febbraio
2009, https://www.exibart.com/milano/fino-al-7-vi-2009-futurismo-1909-2009-milano-palazzo-reale/
2 F. T. Marinetti, Il primo manifesto futurista in F. Alfano Miglietti, Per-corsi di arte contemporanea:
dall’impressionismo a oggi, Skira, 2011, pp. 119-120
3 F. Alfano Miglietti, Per-corsi di arte contemporanea: dall’impressionismo a oggi, Skira, 2011, pp.
119-127
4 Ibidem
5 No contexto da itália de 1914-1915, refere-se especificamente aos que desejavam a entrada do país na primeira guerra mundial.
6 P. Tonini, Futurismo e Costruttivismo, 2012
(https://www.arengario.it/futurismo/futurismo-e-costruttivismo/)