Se tudo passa, poderia dizer que música é a fotografia da alma no tempo. Jean-Michel Basquiat, pintor famoso, já reconhecia esse poder quando disse: ” A arte é como nós decoramos o espaço. Música é como decoramos o tempo.
Decorar. Essa palavra, à primeira vista, traz a noção de enfeitar, deixar um ambiente mais belo.
E sim, música pode deixar ambientes cansativos um pouco menos entediantes, bem como pode
ser a fagulha que incendeia uma festa antes morna. Música pode fazer um céu nublado indiciar
uma tempestade, bem como pode mostrar o sol atrás das nuvens.
Música pode ser viés de confirmação, pois “como pode aquele artista ter escrito tudo que sinto?”, ou pode nos levantar
questionamentos que apenas milênios seriam capazes de explicar (apenas em alguns segundos).
Contudo, gostaria de enfatizar um outro sentido. Decorar — isso eu sei de cor! Sei manter algo
na memória, mas sobretudo, vivo no coração.
Para mim, música é persistir ao tempo. É lembrar de cheiros, emoções, e quem sabe, verbalizá-
las em sentimentos. Música é um lugar físico, dentro de nós, que só acessamos quando a ouvimos. E assim, de repente, passa a ser algo além do que vimos no mundo cotidiano. O
quadro “A persistência da memória” de Salvador Dalí, evoca as sensações do passar do tempo:
Contemplando esse quadro, um exercício de imaginação interessante seria atribuir a um músico
a tarefa de compor uma canção baseada nesse conceito.
A partir disso, certamente, diferentes histórias seriam criadas, contadas ou lembradas. O tempo foi reconhecido como uma grandeza
relativa, associada ao espaço. Em termos poéticos, não existe tempo sem espaço, nem espaço
sem tempo. Assim, nós humanos, seres que atravessam a vida por entre esses deuses, não
passamos ilesos.
Neste texto, gostaria de engrandecer cinco canções que provam que um ser como
nós pode vencer o eterno.
1. Ojos de Video Tape – Charly Garcia (1983)
Este mundo extrañará por siempre
La película que vi una vez
Y este mundo te dirá que siempre
Que es mejor mirar a la pared
Cantautor, multi-instrumentista de ouvido absoluto, Charly García é a figura mais vanguardista
da música popular latino-americana. Não tão reconhecido no Brasil, é um must listen para todo
mundo. É a prova viva da resistência ao tempo, pois, mesmo após tantos abusos (uma vez pulou
da sacada de um hotel e aterrissou triunfantemente em uma piscina só para fugir de paparazzi),
está vivo e com um legado incomparável.
No contexto da memória, a faixa que encerra a obra-prima Clics Modernos (1983) é categórica
em dizer “¿No ves que espero resucitar […]”, revelando um eu lírico que se recusa a ficar inerte
em tempos sombrios. A estrofe sintetiza o sentimento de envelhecer vendo o mundo ser
direcionado para caminhos obscuros, ditatoriais (tempos atrás, quem diria que em 2026
poderíamos estar em vias de uma outra grande guerra mundial?). A arte proporciona um
escapismo e fornece elementos para os que ousam revolucionar a sociedade — talvez por isso
seja, com frequência, alvo de governos autoritários. Charly viveu isso na pele, tendo
atravessado a ditadura argentina (1976-1983), que sumiu com opositores e perseguiu o artista.
Quem sabe a música em questão não se trata de alguém que se vê já como uma memória
partida?
2. Abololo – Marisa Monte (2000)
Abololô, abolocô
E a saudade vem
Vem pra lhe dizer que no peito
Há vazio, há falta de alguém.
Marisa Monte canta o vazio no peito. “Abololô”, um neologismo para a saudade, ou para aquele sentimento que associamos a alguém que já não está presente. O nome do disco é oportuno: Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000). “Vem pra qualquer um, qualquer hora”, pois todos estamos sujeitos a sentir a falta de um antigo relacionamento, de um amigo, de um ente querido. Para mim, Abololô é a falta da Amora, minha companhia por uma década, que em breve completa 1 ano de sua partida para o além. Toda vez que penso em Amora, abololô. Eu me abololo todo. Um aperto no peito, algo que me arrebata, mas que não me deixo abater. Essa canção bate no profundo das razões, como uma maré, balançando o corpo e vai embora.
A efemeridade de uma gravação nunca compete à eternidade das canções, sempre conosco quando precisamos.
3. Seus lindos olhos – Hermeto Pascoal & Grupo (2024)
Será que apenas os hermetismos pascoais
Os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas
E nada mais?
(Podres Poderes, Caetano Veloso)
Eterno Hermeto Pascoal.
Música é salvação e Caetano sabe bem.
Já nosso bruxo, antes de formular magias musicais no paraíso, deixou-nos uma obra como
despedida. Uma homenagem à sua eterna amada. Em Pra Você, Ilza (2024), cada composição
é dedicada a Ilza Souza Silva, esposa do artista por mais de 40 anos. Deixo aqui o relato de
Hermeto sobre o disco:
“Tudo o que eu fiz, tudo o que eu faço, tudo o que eu continuo
fazendo, a Dona Ilza está presente, maravilhosamente presente.
Porque ela sempre nas horas — todas as horas, a Dona Ilza,
sempre esteve presente para mim, para me ajudar de todas as
maneiras.
Que maravilha e graças a Deus estou aqui. E ela está lá onde
Deus a levou. Mas ninguém morre, o corpo morre. O nosso amor,
o nosso espírito, a nossa alma continua junto. Todos continuam
desabando.
Eu quero dizer que essa gravação, esse disco, foi um presente,
como sempre, um presente de Deus. Quando eu cheguei lá no
estúdio, pronto, tudo se abriu pra entrar com a minha música. Eu
vi céu na terra fazendo esse trabalho. É um trabalho que é um
presente para vocês todos, de todos nós aqui. Foi esse presente
nosso. Pra quem quiser e pra eterna patroa, Dona Ilza.”
(PASCOAL, 2024).
4. Saudade dos Aviões da Panair – Milton Nascimento (1975)
Cerveja que tomo hoje é apenas em memória
Dos tempos da Panair
A primeira Coca-Cola foi, me lembro bem agora
Nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo
Nas asas da Panair
Infância: quem nunca teve saudade desse tempo? Quando as cores eram novas. Diferentes tons
de azul, diferentes verdes e amarelos. As primeiras idas, as primeiras quedas, coisas que fazem
parte de quem seremos lá na frente (ou somos hoje). Para quem ouve desavisado, parece mero
saudosismo, contudo, Saudades dos Aviões da Panair possui um significado oculto, que se
revela na história brasileira.
A Panair do Brasil S.A. foi uma das pioneiras companhias aéreas do país, sendo a principal
empresa do ramo entre as décadas de 1930 e 1950, conhecida como “Soberana do Atlântico
Sul”. Porém, em 1965, um ano após o golpe militar, a empresa foi forçada a encerrar operações
pelo governo. Ao longo do tempo, soube-se o motivo: perseguição aos seus proprietários.
“O medo em minha vida nasceu muito depois / Descobri que a minha arma é o que a memória guarda”.
Lançada em plena ditadura militar, a letra expressa uma saudade não apenas afetiva,
mas também histórica. O sentimento de perda não é simplesmente sobre a inocência da
infância. Na verdade, a emoção vem do lugar da desilusão de um país que deseja soberania,
mas encontra-se aliciado sob o poder de poucos.
5. Heroes – David Bowie (1977)
I, I can remember (I remember)
Standing, by the wall (by the wall)
And the guns, shot above our heads (over our heads)
And we kissed, as though nothing could fall (nothing could fall)
And the shame, was on the other side
Oh we can beat them, for ever and ever
Then we could be Heroes, just for one day
Atemporal. Essa música, entre tantas outras, é a que mais me salta à memória quando penso
em vencer o tempo. Para a última recomendação, gostaria de uma faixa famosa e que servisse
muito bem como trilha sonora do fim do mundo. Não o fim do mundo de maneira catastrófica.
Um fim do mundo Heroes, David Bowie.
Imagine, em meados de 1977, um estúdio musical com vista para o Muro de Berlim, um grande
símbolo da divisão que o mundo sofria. O muro significava a batalha entre povos, da Guerra
Fria, cuja persistência poderia romper definitivamente com a história da humanidade. O muro
estava ali para lembrar os cidadãos das Alemanhas Ocidental e Oriental que suas vidas estavam
por um fio.
Agora, imagine um casal dividido por esse ele, ansiando viver seu amor mesmo que
geograficamente impedidos. Até que, uma tarde nebulosa, aos pés do temido muro, o casal se
encontra e compartilha carícias e beijos, negando temer qualquer perigo.
Foi sobre essa memória tão marcante que David Bowie compôs uma de suas canções mais
famosas. Heroes já foi tema final de filme, de série, e de milhares de vidas mundo afora
(incluindo a minha).
Essa música me enche de esperança de mudança, mas também de memento mori: sou mortal, e contra isso não posso fazer nada. Porém, mesmo que por um instante, eu posso romper essa barreira. Sim, nós podemos ser heróis — mesmo que por um dia.