“Há uma rachadura em tudo — é assim que a luz entra.”
Recentemente, me deparei com
essa citação e não consigo tirála da cabeça. Evoca uma imagem
poderosa e pungente que atravessa
minha percepção da vida ao redor,
conectando-se ao conceito japonês de
kitsugi: a beleza das coisas quebradas.
Há algo bastante reconfortante,
especialmente em tempos em
que a esperança parece difícil de
encontrar, na celebração das próprias
feridas. Essa citação desperta em
mim uma fé cega de que, mesmo
fraturado, ainda é possível acolher
os sopros de ar fresco que a vida
deixa passar por entre as frestas.
Aftersun (2022), da escocesa Charlotte
Wells, transformou a estreia da cineasta
em uma carta íntima e profundamente
pessoal ao seu passado como filha. Aos
dezesseis anos, Wells perdeu o pai;
uma figura intermitente, mas nunca
completamente ausente de sua vida,
segundo as próprias lembranças.Inspirada por uma fotografia antiga da sua infância,
começou a escrever o roteiro do filme como uma forma
de completar aquela imagem dentro da compreensão
que possuía do tempo que passaram juntos. É uma
tentativa de realização e de reconciliação com uma
realidade que ela jamais conheceu plenamente, cujas
nuances só pôde perceber ao atingir a mesma idade
que seu pai tinha quando morreu. A partir de suas
memórias pessoais, Wells constrói uma ponte entre o
privado e o universal. Ao retornar às lembranças em
busca de respostas para as lacunas do presente, ela
tenta compreender quem seu pai realmente foi e cria
um espaço de identificação para muitos espectadores.
Assim como as fissuras do kitsugi, os personagens
de Aftersun nos mostram que o entendimento
nem sempre surge na totalidade de algo, mas da
interpretação dos diferentes tons de luz que emergem
de uma nova configuração marcada pela fratura.
O filme acompanha um pai, Calum (Paul Mescal),
e sua filha, Sophie (Frankie Corio), durante as
férias de verão na Turquia, durante os anos 1990.
Paralelamente, vemos Sophie já adulta, vinte
anos depois daquele verão, tentando reconstruir
a identidade de um pai que percebeu nunca ter
conhecido.
Essa busca, realizada principalmente a partir de fitas VHS, o fio condutor de
toda a narrativa, introduz a ideia da memória como algo incompleto. Algo
que, à medida que a vida avança, ganha novas interpretações moldadas pelas
diferentes versões de nós mesmos que nos tornamos ao longo do tempo.
A memória nem sempre é um registro fiel.
Você já percebeu o quanto suas lembranças mudam com o passar dos
anos? Já notou como guardamos detalhes aparentemente inúteis sem
compreender o lugar que ocupam dentro de nós? Todas as respostas
possíveis para essas perguntas são reveladas em Aftersun: Cada cena
cotidiana, à primeira vista banal, torna-se um testemunho de como tudo
adquire peso quando observado pelo olhar adulto. Os pequenos detalhes
que cercam a Sophie criança transformam-se em respostas provisórias
que ela oferece a si mesma vinte anos depois.
As memórias, assim como a montagem do filme, não são lineares. Não
há nada de acidental nos saltos, cortes ou fade-outs da montagem;
eles reproduzem o fluxo do pensamento, que constantemente avança
e recua, se demorando em certos momentos antes de se dissolver em
outros. Em vez de seguir uma lógica clássica de continuidade, o filme
opera por meio de um fluxo associativo e afetivo, no qual as imagens
surgem em resposta a gatilhos emocionais. Isso cria uma sobreposição
temporal em que diferentes momentos coexistem e se entrelaçam. Os
flashbacks raramente são demarcados com clareza, dissolvendo-se em
outras linhas temporais sem fronteiras definidas. O resultado é uma
oscilação constante entre tempos distintos, na qual a montagem passa a
funcionar como o próprio mecanismo da memória.
Essa ideia é reforçada também pela composição visual do filme. Ao longo
das cenas das férias, Calum aparece frequentemente enquadrado através
de espelhos, mesas de vidro, telas de televisão e outras superfícies
reflexivas, como se a versão dele preservada na memória de Sophie
fosse apenas um reflexo parcial de quem realmente era. Assim como
a própria memória, essas imagens oferecem acesso ao personagem ao
mesmo tempo em que o ocultam, sugerindo que nem Sophie nem o
espectador são capazes de compreender plenamente aquela vida interior.
Além disso, é importante destacar a presença constante da água, que pode
ser entendida como uma metáfora visual da mente. A água flui, nunca sendo
completamente capturada. Ao longo do filme, testemunhamos tomadas
cativantes do movimento da água, bem como a mão de Sophie tentando
quase acariciar piscinas e mares azuis. A água reflete a maneira como as
lembranças escapam por entre seus dedos, alterando sua forma de acordo
com a maneira como são tocadas e com as intenções depositadas sobre
elas. Aftersun reconstrói o passado como algo não muito diferente da
água: instável e em constante transformação. Como em tantas narrativas,
a perspectiva é central para a compreensão da história. No filme, tudo é
filtrado pelo olhar da Sophie adulta, o que implica uma reinterpretação
completa de cada cena vivida durante aquele verão da infância.
A história que nós, espectadores, testemunhamos não é exatamente “o que
aconteceu”, mas aquilo que sua versão mais jovem foi capaz de recordar. Isso
implica que a aparente rotina diária de seu pai durante a viagem adquire uma
mensagem totalmente nova — gestos, silêncios, mudanças de humor — que
Sophie adulta busca remontar na tentativa de traçar a verdadeira identidade
de Calum. No entanto, essa mesma distância temporal e emocional evidencia
a impossibilidade de compreender tudo com absoluta certeza.
“Lembrar não é apenas revisitar o passado; É revivê-lo. A memória é um ato de presença, que só permanece vivo enquanto é experimentado”
Nós, incluindo a própria filha, jamais conhecemos verdadeiramente
quem Calum foi, mas sim a versão lembrada. Aquela construída
por memórias e fitas de vídeo do verão que passaram juntos.
As gravações desempenham um papel fundamental ao longo
da narrativa. Elas oferecem uma sensação de autenticidade e
confirmação às lembranças de Sophie. No entanto, as imagens
são limitadas, incapazes de capturar a dimensão emocional. É
a Sophie adulta que, com base nesses fragmentos delimitados
da realidade, decodifica o material a partir de seu próprio
conhecimento pessoal, adquirido ao longo do amadurecimento.
Da mesma forma, as cenas do “espaço escuro” possuem um impacto
decisivo na memória de Sophie. Diferentemente do restante da
narrativa, que acompanha a intimidade cotidiana, essas sequências
surgem como fragmentos desorientadores e profundamente
sensoriais. Elas acontecem em um espaço indefinido, quase
inteiramente escuro, iluminado apenas por flashes intermitentes
de luz. Dentro dessa escuridão, figuras aparecem e desaparecem em
breves instantes de visibilidade antes de serem novamente engolidas
pela sombra. Ao longo do filme, vemos repetidamente essas cenas
vagas e frenéticas, que evocam boates ou limbos mentais e parecem
interromper a lógica narrativa da obra. No entanto, sua presença é
totalmente deliberada.
Ao romper com o realismo predominante no restante do filme, elas representam justamente o elemento mais verdadeiro: a tentativa fracassada de Sophie
de se conectar com o pai. Essas sequências apontam de forma dolorosa para a
impossibilidade de acessar plenamente o passado; de extrair qualquer certeza
definitiva dos momentos vividos. Nelas, a música e o som desempenham um
papel fundamental, funcionando como gatilhos de memória e privilegiando a
absorção e a distorção sensorial em detrimento de uma narrativa concreta. A
memória surge menos como uma imagem estável do que como uma atmosfera.
Às vezes, quando o esquecimento nos atinge e nos deixa diante de um beco
sem saída nas avenidas do subconsciente, é a menor das sensações que se
transforma em chave. Talvez não nos lembremos da conversa que tivemos
ontem no ônibus, do horário em que chegamos em casa hoje ou da mensagem
embriagada que enviamos alguns noites atrás; mas o perfume do garoto
que partiu meu coração, o rosto da minha melhor amiga sempre que escuto
Wonderwall ou o sabor do prato que minha avó costumava preparar tornam-se o meu fio de Ariadne — permitindo não apenas escapar do Minotauro, mas
encontrar o caminho de volta ao centro oculto de mim mesma.
Tendemos a recordar atmosferas mais do que explicações. O passado se
apresenta muito mais como um sentimento do que como uma sequência
lógica de acontecimentos. É nessa linha que encontramos o clímax do
filme: a cena ao som de Under Pressure. Aqui vemos uma das formas mais
diretas e vulneráveis de expressão de Calum. Tudo acontece através dos
gestos; seu corpo fala e revela aquilo que ele jamais conseguiu colocar
em palavras. Ao som do refrão doloroso, mas discretamente esperançoso:
“This is our last dance (…) this is ourselves”
a sequência adquire um significado devastador. Vemos uma sobreposição de
imagens em que Sophie e seu pai se abraçam e, em seguida, sendo empurrados
para lados opostos, afastando-se. Sophie tenta alcançá-lo, mas ele escapa
repetidamente de seu alcance. Essas justaposições anunciam uma despedida:
o último momento de conexão antes de uma perda irreversível. Tudo
acontece envolto em uma névoa de confusão, moldada pelos movimentos
rápidos da câmera e atravessada pelas sequências do “espaço escuro”. As
memórias de Sophie estão sendo agitadas, incapazes de permanecer imóveis.
Para o espectador, esse momento cristaliza a tragédia central do filme: o
amor nem sempre é suficiente para atravessar a distância que existe entre
duas pessoas. Os fantasmas de Calum parecem conduzi-lo a um destino do
qual nem Sophie nem o espectador consegue resgatá-lo. Isso transforma o
que parecia ser apenas uma dança em um grand finale. Como sugere a própria
música, aquele é o último momento que compartilham. A cena captura a
ruptura silenciosa entre os dois, mas também a despedida da infância de
Sophie, marcada pela confusão que permanece quando o amor é lançado em
um vazio incapaz de devolvê-lo.
Às vezes, o que mais dói é não ter tido a oportunidade de se despedir.
A morte é um fim universal, mas ela não impede outra forma de
permanência: aquela construída na memória dos outros. Enquanto houver
alguém para contar nossa história, continuaremos existindo. Talvez
Shakespeare estivesse certo em Hamlet e, enquanto tivermos nosso próprio
Horácio — o companheiro que sobrevive ao protagonista e se torna a voz
de seu legado — todos poderíamos, cada um à sua maneira, encarnar
Hamlet quando a nossa hora de cruzar o limiar da memória chegar.
“Lembra-se de mim”, pede o protagonista da peça homônima quando seu
momento chega; porque, para ele, o resto é silêncio. Aftersun é a prova de
que, enquanto houver uma tentativa de lembrar, de contar histórias e fazê-las
viver novamente, a vida não terá sido perdida.
O fim não será definitivo.