Parece que estou em uma busca incessante por compreender quem sou e como me sinto. Tento me recordar como certas situações aconteceram e, por mais que eu tenha registros, algum detalhe sempre se transforma cada vez que eu as revisito.
“Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu.”
Já dizia Clarice Lispector em sua crônica Lembrar-se. Poucas frases tecem as memórias
de forma certeira, um limiar entre real e imaginário. Ler Lispector é, para mim, entrar em
mentes e mundos que soam como meus, mesmo que não sejam.
Foi por esse caminho que cheguei a Yudith Rosenbaum, professora de literatura brasileira
na FFLCH-USP e especialista nas obras clariceanas. Nesta conversa, percorremos os
fios que unem linguagem, subjetividade e experiência, para costurar reflexões sobre a
literatura de Clarice.
Anita Meraki: Como você encontrou a Clarice Lispector e se encontrou nesse
lugar de pesquisa sobre ela?
Yudith Rosenbaum: Clarice é uma autora com quem muita gente tem o
primeiro contato na adolescência. O meu aconteceu no Ensino
Médio, quando li o conto Amor. Esse conto se tornou a base da
minha pesquisa. Achei aquele conto incrível. Fiquei, ao mesmo
tempo, perturbada e encantada. Acho que essas são justamente
as dimensões que Clarice provoca no leitor: encantamento,
estranhamento, perplexidade e uma espécie de identificação
desconhecida.
A gente não sabe exatamente o que nos toca na obra dela.
Pensei que precisava ler mais dela. Escolhi A paixão segundo
G.H, mas não consegui terminar. Devia ter uns quinze anos.
Era uma floresta muito escura para mim. O romance parte do
encontro de uma mulher com uma barata no quarto da empregada. Existe ali todo um
universo brasileiro. Primeiro o encontro com o outro de classe e, depois, o outro de
espécie.
Anos mais tarde, no doutorado, resolvi reencontrar a Clarice dos Contos e me reconciliar
com aquela de A paixão segundo G.H. Meu mestrado havia sido sobre Manuel Bandeira,
e eu queria estudar uma grande ficcionista para entrar no universo da prosa. Escolher
Clarice foi uma das decisões mais certeiras da minha vida, porque nunca mais me separei
dela.
Costumo dizer que Clarice não é uma escolha. É um encosto.
Ela me persegue. Às vezes tento estudar outros autores, mas sempre volto. Há uma profundidade enorme na obra dela. Ao mesmo tempo em que observa a minúcia da vida cotidiana, familiar, social, humana; ela alcança uma dimensão universal. Clarice não é apenas brasileira, é cosmopolita. Na época, eu nem pensava na questão da mulher, eu queria entender o ser humano. E era para isso que Clarice me chamava.
O homem, a mulher, a criança, o adolescente, todas as idades. A Clarice fala de todas as idades.
Meu primeiro curso foi Psicologia, mas,
apesar de sempre ter me facinado esse
mergullho na subjetividade, percebi que
meu lugar não era na análise.
A Clarice constroi a interioridade de
maneira muito natural. Você entra no
fluxo de consciência da personagem, nessa
associação livre, sem nem ver. Acho que
foi assim que percebi que meu lugar era em
salas de aula.
Ao explorar a vida de Lispector, é possível
ver que ela existiu em vários lugares.
Nascida na Ucrânia, logo cedo se mudou
para Recife e depois para o Rio de Janeiro.
Além de ter sido casada com Maury Gurgel
Valente, um diplomata, profissão em que
viagens e mudanças são recorrentes.
AM: Como você percebe esse
nomadismo nas obras da Clarice?
Você se identifica com essa vivência de
mudança constante?
YR: Sempre morei em São Paulo, mas minha família também é judia e saiu da Ucrânia.
Enquanto a família da Clarice foi para Recife, a minha veio para São Paulo. Meu bisavô morreu
durante a Guerra Civil Russa e minha avó chegou ao Brasil como refugiada. Porém só percebi
recentemente essa identificação. Hoje entendo que existe um vínculo profundo com essa
experiência do exílio e do deslocamento que podem ter me motivado a conhecê-la melhor.
Clarice viveu esse nomadismo durante toda a vida, mas acho que seu olhar estrangeiro não
nasce apenas dessa condição. Ela chegou muito pequena ao Brasil, praticamente cresceu em
português. Nunca chegou a falar russo ou ucraniano; ouvia principalmente o ídiche.
Mas ainda é extraordinário o que ela fez com a língua portuguesa.
Guimarães Rosa, por exemplo, transforma a matéria verbal, inventa palavras, brinca com
o significante. Enxadachim, espadachim, o herói, junto à enxada, para mostrar a grandeza
dentro de um trabalhador mineiro.
Já Clarice faz outra operação, ela trabalha com a sintaxe e a semântica.
Ela escreve alegria difícil, náusea doce. Grandes antíteses, com
uma aproximação de palavras que normalmente não estariam
juntas. Pontuações inusitadas. Ou até cria imagens como: “Que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias?”.
Para mim, ela reorganiza completamente nossa percepção da linguagem.
Em A fuga, por exemplo, a simples retirada de um adjetivo,
“Antes eu era uma mulher casada; agora sou uma mulher”, já
transforma a identidade da personagem.
Clarice olha para aquilo que nós já naturalizamos e consegue
fazê-lo parecer novo. Um cardápio, um ovo sobre a mesa,
qualquer objeto pode se transformar em mundo.
AM: Os textos da Clarice são muito autobiográficos, mas
ainda assim muito ficcionais. Como você acha que essa
construção de memória e imaginário nasce?
YR: A resposta está, entre outros lugares, em Freud. A grande
descoberta dele foi mostrar que a memória também é ficção.
Ela não funciona como um álbum de fotografias congeladas.
Não buscamos uma imagem intacta do passado; a memória é
dinâmica. Mistura temporalidades, reorganiza acontecimentos
e desloca experiências. Muitas vezes fazemos isso para nos
proteger de lembranças difíceis. Esses mecanismos são inconscientes e atravessados pelo
desejo. Por isso memória e desejo estão tão próximos.
Não é por acaso que Mnemosine,
na mitologia grega, é a mãe das musas.
A memória gera criação porque já nasce atravessada pela imaginação. Aristóteles dizia algo
semelhante no Tratado da Reminiscência, ao aproximar memória e imaginação como faculdades
inseparáveis.
Quando Clarice escreve Restos do carnaval, a memória aparece justamente como resto:
fragmentos que sobrevivem e vão sendo tecidos ao longo da vida.
Escrever também é tecer.
AM: Em Cem anos de perdão, Clarice fala de uma menina
pobre que invade os jardins das casas ricas para roubar
rosas e pitangas. Como você vê essa relação entre memória
e desigualdade social?
YR: Às vezes ficamos tão fascinados pelo olhar da Clarice que
esquecemos o contexto social em que ele está inserido. Ela
aproxima tanto o olhar das coisas que percebe detalhes quase
invisíveis. Foi com Clarice, por exemplo, que percebi que a
barata tem boca.
Mas Cem anos de perdão também retrata uma
sociedade profundamente desigual. Estamos falando
do Recife dos anos 1930. A menina invade aqueles
jardins porque deseja uma rosa, uma pitanga. É
uma transgressão movida pelo desejo de beleza e
pertencimento, mas que também atravessa fronteiras
sociais.
Essa dimensão aparece de forma ainda mais explícita
em Mineirinho. Clarice foca na violência policial e os
treze tiros que acertaram o criminoso, ao invés de
atentar-se aos crimes cometidos.
Existe uma dimensão profundamente social em sua obra, mas ela aparece por dentro.
O social está na subjetividade das personagens. Por isso ela não escreve como Jorge Amado, Graciliano
Ramos ou Rachel de Queiroz. No lugar de uma denúncia
direta, transforma a linguagem e a experiência subjetiva
em formas de representar o Brasil.
AM: É como acontece em A hora da estrela. Ela conta a história de uma nordestina
vivendo no Rio de Janeiro, mas tudo passa pelo olhar do Rodrigo S.M. Macabéa
parece feliz.
YR: Ela parece feliz porque nunca chega a perguntar quem é. Existe aí uma alienação em
relação à própria identidade e também à realidade social. Mas Clarice consegue fazer dessa
precariedade uma potência.
Macabéa percebe o mínimo. Emociona-se com uma música, observa uma vitrine de
parafusos, pinta as unhas de vermelho. Rodrigo S.M., ao contrário, perdeu essa capacidade
de encantamento. Ele e Olímpico desejam grandeza; Macabéa encontra sentido justamente
no que parece insignificante. É aí que Clarice revela a humanidade da personagem.
AM: No fim, Rodrigo passa o livro inteiro
tentando compreender a vida de uma mulher
que ele nem conhece, em vez de viver a própria
vida.
YR: Exatamente. E é interessante lembrar que
a própria Clarice dizia ter encontrado Macabéa
numa feira de nordestinos no Rio de Janeiro. Veja
como a memória biográfica entra na ficção. Ela
é um dos fios da narrativa, mas, quando entra
no processo criativo, já está completamente
transformada.
AM: Ela deixa de ser um fio e vira uma tapeçaria.
YR: Exatamente.
Esse é o trabalho da criação literária.
A memória alimenta a escrita, mas, ao ser
transformada pela imaginação, torna-se outra coisa.
Rosenbaum diz ter mais repertório para pensar Lispector, quando comparado
ao primeiro contato ainda jovem. Porém, o encantamento e a perturbação
continuam com ela. Hoje, a professor consegue entender muito melhor como
para a autora as coisas nunca são uma só. Não existe apenas feio e bonito,
doce ou amargo. Existe uma mistura, onde todos nós vivemos.
Nós vamos construindo identidades, professora, mãe, isso ou aquilo. É o que
nos traz pertencimento e Lispector adorava isso. Os laços de família que
nos libertam, mas também nos aprisionam. É a própria autora quem usa a
expressão “corrente de vida”. Corrente é um fluxo que nos guia na vida, mas
também é um cadeado, aquilo que prende.
São nessas antíteses que surgimos e costuramos a memória, em meio a ficção de uma lembrança e a esperança de uma realidade.