A memória, ao contrário do que imaginamos, não é o passado resgatado, uma história
contada sempre da mesma maneira e muito menos uma narrativa fidedigna de algo que já
deixou de existir.
A memória é, na verdade, uma construção exclusiva do presente, fruto de
um processo de feição adaptativa, fluido, mutável e sempre maleável às dinâmicas sociais1.
Pode-se dizer, e facilmente observar, que a memória é fruto de uma gestão, com plena capacidade de forjar e manipular narrativas em detrimento de outras, silenciadas ou apagadas.
Quando nos debruçamos sobre os mecanismos que selecionam e reproduzem a memória,
inevitavelmente esbarramos nas instituições que a legitimam. Museus, arquivos e políticas de
preservação não apenas guardam o passado, mas também o delimitam, tornando visíveis as
narrativas que desejam perpetuar. A escolha do que deve ser incluído ou excluído reflete uma
hierarquia social, pois é nesses espaços que a memória deixa de ser apenas uma experiência
difusa e passa a ser reconhecida como patrimônio, muitas vezes a partir da validação de
órgãos públicos que determinam o que deve ou não ser preservado.
Foi a partir dessas inquietações que me aprofundei na pesquisa sobre casas-museus de
mulheres, buscando compreender quais trajetórias femininas, tantas vezes apagadas,
conseguiram ascender e se firmar na esfera cultural brasileira. Mas o que são casas-museus?
Segundo Paulo Eduardo Barbosa, doutor em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP, elas não
apenas transmitem as histórias e os enredos dos homenageados em seu acervo, mas também
colocam em discussão modos de morar e a conformação das cidades no fenômeno urbano2.
Mas como um espaço projetado originalmente para uso doméstico pode ser reconfigurado
para atender às demandas de uma instituição de uso público ou aberta à visitação? Soma-se a
isso o desafio de tratar o acervo da casa de modo a recontar as histórias de seus antigos
habitantes sem recorrer a representações caricatas ou desprovidas de rigor documental e
histórico3.
Essas reflexões ganham novos contornos quando articuladas à presença feminina, tanto na
condição de figuras homenageadas quanto pela associação recorrente entre o universo
doméstico e o feminino.
As casas-museus de mulheres evidenciam a complexidade dessas
questões, na medida em que a construção da memória se cruza com disputas em torno do
espaço privado, da visibilidade de narrativas femininas na história cultural.
A partir de um levantamento inédito de casas-museus de mulheres no Brasil, observei um
centramento na excepcionalidade das trajetórias, com foco em mulheres específicas que se
destacam como “precursoras” ou “à frente de seu tempo”. Isso se traduz em duas casas que
visitei: a Casa do Sol – Instituto Hilda Hilst, em Campinas, e a Casa Ema Klabin, em São
Paulo.
Tombada em instância municipal, o antigo lar de Hilda Hilst tem seu valor patrimonial
fortemente ancorado na vida e na consagração da autora no campo literário. Com uma obra
que costura poesia, prosa e teatro, marcada pela experimentação formal em temas ligados à
sexualidade, religião e morte, Hilst passa a se dedicar integralmente à literatura a partir de sua mudança, em 1966, para a Casa do Sol. É nesse espaço que produz grande parte de sua obra e
fazendo da casa um ambiente de convivência intelectual, frequentado por artistas, escritores e
estudantes, configurando a casa como núcleo ativo de produção cultural.
Já a Casa Ema Klabin, no Jardim Europa, contemplada no perímetro de tombamento do
bairro em instância municipal e estadual, foi projetada e construída pelo engenheiro-arquiteto
Alfredo Ernesto Becker nos anos 50, encomendada para abrigar a coleção reunida por Ema
Klabin, uma mulher de elite, que levou uma vida associada ao mecenato das artes e da
cultura. A casa apresenta aos visitantes um grande acervo de telas, mobiliários e objetos
decorativos de importância histórica, assim como artigos de uso pessoal.
O desejo de musealização surgiu da própria Klabin no fim de sua vida. O seu modo de morar permanece
sendo referenciado em meio a escolhas curatoriais, a partir de seu dormitório, banheiro, e
outros cômodos da casa, permitindo que o visitante, para além de observar os objetos
colecionados, tenha contato com um modo de vida associado às elites paulistanas da segunda
metade do século XX.
Esses dois exemplos (dos 35 casos analisados) são particularmente ilustrativos do perfil
predominante das mulheres homenageadas em casas-museus no Brasil.
São artistas, intelectuais ou mulheres de elite, narradas a partir da ideia de excepcionalidade, pioneirismo
ou distinção. Além disso, ambas as casas são salvaguardadas pelo tombamento, evidenciando
que a materialidade das edificações e suas tipologias arquitetônicas também são consideradas
dignas de preservação.
Ainda que sejam trajetórias extremamente relevantes e instituições culturalmente ricas,
capazes de suscitar reflexões importantes sobre o feminino, a pesquisa exigiu um
deslocamento crítico do olhar. Tornou-se necessário questionar por que são justamente essas
trajetórias que alcançam legitimidade e visibilidade, enquanto tantas outras permanecem à
margem.
Onde estão as memórias de mulheres periféricas, pobres, negras ou vinculadas a
formas populares de habitar e produzir cultura? O que busquei ao longo desse tempo foi
interpretar a memória como um campo de disputas, marcado por escolhas que definem quais
narrativas serão lembradas e transmitidas às gerações futuras, e quais seguirão sendo
apagadas ou silenciadas.
1 Meneses, U. T. B. de. (1992). A História, Cativa da Memória? Para um Mapeamento da Memória no Campo das Ciências Sociais. Revista Do Instituto De Estudos Brasileiros, 34, 9-23.
2 BARBOSA, Paulo Eduardo. Tempo: casa-museu e cidade. Tese (Doutorado em Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.
3 YOUNG, Linda. A woman’s place is in the house… museum. Open Museum Journal, v. 5, p. 1-24, 2002.