Eu tento não pensar muito.
Mas às vezes, quando deito na cama ou tomo um longo banho, acontece. Me pego revivendo uma viagem que fiz quando era criança, uma das minhas primeiras recordações. Eu e minha família na praia, um picolé de uva e o momento que cai e ralei o joelho. Por mais que o machucado tenha doído, guardo como um dia feliz, pois estava nos braços daqueles que me amam.
A água quente do chuveiro contra minha pele me faz lembrar das lágrimas que senti na minha bochecha na última vez que disse adeus ao meu avô, e de todas as piadas bestas que ele me contava. Consigo até mesmo ver seu sorriso enquanto comia brigadeiro no meu aniversário de 15 anos.
Muitos me dizem que somos iguais e isso me aquece mais do que esse banho.
O shampoo é o mesmo que sempre usei. O cheiro me transporta para as inúmeras semanas que compartilhei com uma grande amiga durante a pandemia. Dias em que fingíamos ser musicistas, escritoras, fotógrafas e modelos — mesmo em um momento difícil, ao lado dela tudo parecia possível. Todos os nossos sonhos estavam a apenas um passo de distância e nem sabíamos.
Cresci e vivenciei muitos momentos.
Entre eles, um abandono. Já não tinha aquela que desembaraçava meu cabelo. Agora faço isso sozinha, e é bom poder sentir quão macios os fios são. Talvez sejam os pequenos detalhes que marquem o nosso dia a dia; por isso, ocasionalmente, me pego usando frases que ela usava ou escutando músicas que costumávamos dançar na sala de casa. Não sei se passo por sua cabeça ou se ela me apagou como todas as fotos que tínhamos juntas, mas isso não importa.
Ciclos acabam da mesma forma que canções, aulas, dias, banhos.
O vapor embaçou minhas ideias, assim como todos os vidros do banheiro, não consigo nem mesmo distinguir minha imagem no espelho.
Eu não acho que eu seja a pessoa que pode dizer o que deve ficar no passado e o que eu devo trazer junto ao meu coração, não quando a nostalgia me veste mesmo em momentos presentes. É permitido sentir saudades de uma festa universitária enquanto eu ainda estou bêbada dançando? Eu e meus melhores amigos gritando um pop qualquer em uma sexta à noite e depois estudando em uma terça normal. Um grupo com quem posso conversar e até rever quem sou. Aqueles de quem vou lembrar quando meus netos me perguntarem sobre minha juventude.
Mas hoje é domingo, então, decido passar um café e comer as panquecas de banana que têm o mesmo sabor de acordar em outro país, conversando em uma mistura estranha de francês, português, italiano ou espanhol, não fazia diferença, todas línguas latinas são a mesma. Ocasionalmente também falávamos em inglês. Mas, no fim, nenhum idioma é capaz de descrever a beleza dos Alpes quando vistos da minha janela ou das pessoas que os observavam comigo. Cada momento, viagem e conversa que provei, gole por gole.
Uma experiência que me moldou para sempre.
Agora, vejo pela janela vários prédios, em cima da mesa meu livro favorito. Quando o li pela primeira vez, devorei. Hoje, já faz dias que não pego nele. Acho que estou aprendendo saboreá-lo, pouco a pouco, para que seu gosto não fuja de mim. Dessa vez, pretendo guardar cada detalhe, como se tivesse sido impresso na minha mente e não no papel.
Quero também imprimir um sorriso, cada detalhe, talvez até mesmo colocar na minha parede.
Poderiam ser seus olhos, suas mãos ou até mesmo a curva da sua cintura, desde que pudesse manter para sempre perto de mim. Mas, ao invés disso, abro o livro na página marcada com uma flor que ganhei alguns meses atrás. Está muito diferente do que um dia já foi. Aprendi que as flores, com o tempo, se inclinam em direção ao sol e crescem. A minha não. Ela se inclina em direção ao mar e se torna uma marca importante que muda todas as vezes que olho. Talvez seja seu charme ou a graça das lembranças, sempre únicas.
Eu tento não pensar muito, mas no fim é tudo que sou: memórias. Mas também tudo que nunca mais serei.