a história da arte pode ser modificada pela memória?

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Em 2009, em Milão, a maior exposição sobre o Futurismo já realizada abriu na Itália, no Palazzo Reale. Para marcar o centenário do movimento, organizaram a mostra Futurismo 1909-2009. Velocità + Arte + Azione (“Futurismo 1909-2009. Velocidade + Arte + Ação”), que deveria ser a primeira grande comemoração e reconstrução do movimento vanguardista italiano.1. A exposição tinha, porém, um pequeno problema: seu conteúdo parava com o fim da Primeira Guerra Mundial. Certamente é preciso reconhecer que o conflito representou um momento de ruptura para a vanguarda futurista, causando a morte de algumas das principais figuras, sobretudo Umberto Boccioni e Antonio Sant’Elia. Mas por que o principal evento de comemoração do Futurismo deveria deixar de lado, ou melhor, apagar da memória, metade de sua história enquanto corrente artística?

Para responder a essa pergunta, seria conveniente primeiro traçar uma breve linha do tempo do Futurismo.

Em 20 de fevereiro de 1909, foi publicado em Paris, no jornal LE FIGARO, o Manifesto do Futurismo, escrito por Filippo Tommaso Marinetti. Desde o início, ficam claras as aspirações vanguardistas do movimento. O termo “vanguarda” provém do vocabulário militar italiano. Como afirma o dicionário Treccani, trata-se da unidade que precede as tropas em movimento, com finalidade de segurança. No início do século XX, porém, esse nome passou também a designar movimentos artísticos que defendiam novas formas de expressão em contraste com a tradição, sublinhando seu caráter impetuoso e, por vezes, violento. No manifesto são estabelecidos os pontos-chave que distinguem o Futurismo: o amor pela tecnologia, pela velocidade e pela inovação, a violência e o ódio a qualquer forma de passadismo. Marinetti, pai do Futurismo, conclui o manifesto afirmando:

“É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o FUTURISMO, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.”2

À época, a Itália atravessava um momento de rápida transformação e muitos se aproximaram do Futurismo. Seu cenário de estreia foi Milão, cidade símbolo da inovação tecnológica e da revolução industrial que atingiu o país, onde a vanguarda italiana viveu sua primeira fase com grande efervescência, que estabeleceu uma ligação entre arte e todos os aspectos da vida. São justamente os anos 1910 que representam o momento mais experimental e intenso da corrente artística, o aclamado Primeiro Futurismo. É entre 1909 e 1915 que são publicados diversos manifestos futuristas, como o Manifesto da reconstrução futurista do universo, de Depero e Balla (1915).

Com a chegada da Primeira Guerra, o movimento sofre uma ruptura e inicia sua nova era: o Segundo Futurismo. O conflito levou à morte de diversos membros e à dispersão dos ideais de muitos artistas, mas ainda deu, sem dúvidas, vida a uma nova onda de estudos dedicada majoritariamente à arte mecânica e ao culto às máquinas. Podemos reconhecer o fim da trajetória futurista apenas com a morte de seu idealizador e porta-voz, Filippo Tommaso Marinetti, em 1944.3

Mas o que aconteceu durante o Segundo Futurismo para que, em 2009, os curadores da exposição milanesa a suprimir mais da metade da história do movimento? O que ainda hoje torna tão incômoda a memória da única grande vanguarda italiana?

Parte disso está no fato de que algumas das características fundamentais do Futurismo, como a exaltação da virilidade e a glorificação da violência, foram progressivamente apropriadas pela ideologia fascista nascente.4

É necessário, no entanto, redimensionar a atitude do Primeiro Futurismo. Em seus primeiros anos, muitos futuristas demonstravam maior afinidade com a ideologia anarquista do que com a exaltação do Estado, base do recém-nascido totalitarismo.

Durante muitas décadas ocorreu uma espécie de identificação entre a ideologia fascista e o movimento futurista, tornando a corrente artística um tema incômodo. No entanto, essa associação entre Fascismo e Futurismo, que permitiu uma correspondência substancial entre os dois na opinião comum e que ainda hoje gera comentários como “os futuristas eram todos fascistas”, funciona na direção oposta: não são os futuristas que adotam a cultura fascista, mas sim o fascismo que se apropria de parte da teoria futurista.

Para observar na prática o processo de lenta apropriação e purificação do Futurismo de seus aspectos mais subversivos, podemos analisar um exemplo concreto: Síntese futurista da guerra (1914) e Síntese da guerra mundial (1918).

A primeira é fruto do trabalho de Marinetti, Boccioni, Carrà, Russolo e Piatti, imediatamente após uma manifestação interventista5 realizada em Milão. Modelo que depois seria retomado por El Lissitzky em 1919 para criar o cartaz Golpeie os brancos com a cunha vermelha. Observamos, então, um grande triângulo contendo oito nações e suas respectivas virtudes, convergindo para a palavra FUTURISMO, que aponta e combate o PASSADISMO. Fora do triângulo encontram-se todas as noções contra as quais os futuristas lutavam, identificadas com a Alemanha e a Áustria: lemos termos como clericalismo, papalismo e até cretinice.

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Já ao observar a Síntese da guerra mundial, a diferença é evidente. A eficácia comunicativa e tipográfica do cartaz é reutilizada inteiramente em chave patriótica e nacionalista, substituindo FUTURISMO por LIBERDADE e direcionando-a contra BARBÁRIE, em vez de PASSADISMO. Além disso, o preto e branco é substituído pelas cores da bandeira italiana. Embora esse cartaz tenha sido publicado na revista Il Montello em 1918,6 portanto em um momento precoce demais para falar de fascismo (os Fasci Italiani di Combattimento, movimento político que depois se transformaria no Partido Nacional Fascista, surgem apenas em 1919), já é evidente a instrumentalização da estética futurista em chave nacionalista.

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Para um estudioso das humanidades, o papel da memória na percepção da história é evidente. A memória muda e transforma-se ao longo do tempo e, sem uma educação adequada sobre a mesma, os riscos são enormes. A difusão de uma narrativa diferente da realidade será sempre o maior deles. Na Itália, o afastamento do Fascismo e de tudo o que o cercava levou à estigmatização equivocada de um fenômeno artístico historicamente mais complexo do que a simples identificação com o Fascismo permitia enxergar. São muitas as dificuldades de enfrentar uma memória comum amplamente difundida, de desmentir uma falsidade que se confunde com a verdade histórica e de se afastar dos clichês. Talvez o caminho mais fácil a seguir seria fazer vista grossa, escondendo tudo o que é incômodo como o pó debaixo do tapete, mas os resultados de uma operação como essa seriam devastadores.

Foi esse tipo de raciocínio que levou ao apagamento do Segundo Futurismo na mostra Futurismo 1909-2009. Velocità + Arte + Azione. Portanto, nossos esforços como estudiosos devem nos conduzir à descoberta de uma realidade histórica não corrompida, à restituição de uma memória coerente com aquilo que foi a realidade e, sobretudo, à reconstrução do processo que levou à formação da memória que possuímos hoje.

No caso do Futurismo, poderíamos falar de uma instrumentalização política da memória, que ainda hoje ocorre e que demonstra, por si só, a importância do papel desempenhado pela história da arte na sociedade.

De fato, portanto, a memória pode alterar a história da arte e cabe aos estudiosos trazer à luz os processos e os mecanismos por trás da criação dessas memórias.

1 R. Vanali, fino al 7.VI.2009 Futurismo 1909-2009 Milano, Palazzo Reale in “Exibart”, febbraio 2009, https://www.exibart.com/milano/fino-al-7-vi-2009-futurismo-1909-2009-milano-palazzo-reale/


2 F. T. Marinetti, Il primo manifesto futurista in F. Alfano Miglietti, Per-corsi di arte contemporanea: dall’impressionismo a oggi, Skira, 2011, pp. 119-120

3 F. Alfano Miglietti, Per-corsi di arte contemporanea: dall’impressionismo a oggi, Skira, 2011, pp. 119-127

4 Ibidem

5 No contexto da itália de 1914-1915, refere-se especificamente aos que desejavam a entrada do país na primeira guerra mundial.

6 P. Tonini, Futurismo e Costruttivismo, 2012 (https://www.arengario.it/futurismo/futurismo-e-costruttivismo/)