você já sabe essa história

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fotografia de Rafael Ossent.

Desde que tive Covid pela primeira vez — foram 3, ao todo — sinto minha memória cada vez mais ausente.

Hoje convivo com uma dificuldade de me lembrar de coisas simples. Me tornei o amigo esquecido. Um grande amigo meu, que é o melhor contador de histórias que conheço, repete com frequência:

“Você sabe essa história, Rafa”,

ao me contar pela terceira ou quarta vez uma história intrigante que, ao que tudo indica, eu já sei.

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Fotografia de Rafael Ossent.

Aprendi a lidar com isso e até criei mecanismos.

Quando estou procurando algo, repito o nome do objeto enquanto o busco.

Antes de sair de casa, começo a repetir a sigla CCC — celular, carteira e crachá.

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Fotografia de Rafael Ossent.

Me esquecer de coisas banais não me incomoda tanto. Me irrito mesmo com o esquecimento de momentos que gostaria de lembrar.

Para essas ocasiões, adquiri dois hábitos.

O primeiro é a escrita. Escrevo no meu caderno ou no meu celular momentos que gostaria de lembrar.

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Fotografia de Rafael Ossent.
Já o segundo é a fotografia

Encontrei nela a capacidade de estimular minha memória de forma excepcional.

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Fotografia de Rafael Ossent.

Ao olhar a foto da varanda do meu antigo apartamento em Lisboa,

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Fotografia de Rafael Ossent.

me recordo do cheiro do café Pilão que comprei em uma lojinha brasileira depois de meses sem beber café.

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Fotografia de Rafael Ossent.

Ou então das risadas escandalosas do Dominic, meu colega de quarto.

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Fotografia de Rafael Ossent.

Ao olhar registros mundanos, me transporto momentaneamente a um tempo que já não existe mais

E me recordo de alguém que também já não sou.