Desde que tive Covid pela primeira vez — foram 3, ao todo — sinto minha memória cada
vez mais ausente.
Hoje convivo com uma dificuldade de me lembrar de coisas simples. Me tornei o amigo
esquecido. Um grande amigo meu, que é o melhor contador de histórias que conheço, repete
com frequência:
“Você sabe essa história, Rafa”,
ao me contar pela terceira ou quarta vez uma história intrigante que, ao que tudo indica, eu já sei.
Aprendi a lidar com isso e até criei
mecanismos.
Quando estou procurando algo, repito o nome do objeto enquanto o busco.
Antes de sair de casa, começo a repetir a sigla CCC — celular, carteira e crachá.
Me esquecer de coisas banais não me incomoda tanto. Me irrito mesmo com o esquecimento
de momentos que gostaria de lembrar.
Para essas ocasiões, adquiri dois hábitos.
O primeiro é a escrita. Escrevo no meu caderno ou no meu celular momentos que gostaria de lembrar.
Já o segundo é a fotografia
Encontrei nela a capacidade de estimular minha memória de forma excepcional.
Ao olhar a foto da varanda do meu antigo apartamento em Lisboa,
me recordo do cheiro do café Pilão que comprei em uma lojinha brasileira depois de meses sem beber café.
Ou então
das risadas escandalosas do Dominic, meu colega de quarto.
Ao olhar registros mundanos, me transporto momentaneamente a um tempo que já não existe mais
E me recordo de alguém que também já não sou.