o brilho eterno das canções

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Tudo passa. Vontades, brinquedos, roupas, bens, paixões, sonhos: tudo passa, inevitavelmente. Seja por conta de um ocasional desgaste na vida, seja pela chegada arbitrária da morte. Por outro lado, a noção de que nada podemos reter nas mãos nos faz buscar maneiras de conservar momentos e sentimentos.

Assim como um ourives, cravejamos os instantes brilhantes na prata do tempo, guardando cada joia como a herança de uma avó milionária. São esses amuletos que dão o contorno da nossa personalidade e preenchem nossa vida com propósitos e objetivos. Dentre eles, uma das formas criadas pelos seres humanos para construir e armazenar memórias é a música.

Agora quero contar uma história a vocês. Tinha um garoto na minha sala do ensino médio que não ligava para música, dizia que não fazia falta na sua rotina. O nome dele era Rodrigo. Peguei-o na mentira quando numa festa da escola o vi soltando a voz em Pense em Mim, na gravação da dupla Leandro e Leonardo de 1990. Pra mim, era incoerente alguém que não ligasse para música soubesse a letra completa de uma. Para conseguir tal façanha, ele tinha que ter ouvido aquela canção algumas vezes até conseguir decorar. Pensando bem, não me surpreende: Rodrigo era um menino dedicado.

Como ele, muitas pessoas se entregam às histórias gravadas em canções. Se você desligasse o fone de ouvido e prestasse atenção nas pessoas à sua volta, perceberia como algumas deixam escapar preciosas melodias enquanto esperam o ônibus ou andam pela calçada. Não por acaso, a construção da música popular, e posteriormente da indústria musical, se baseia em uma lógica comunicacional de extração das coisas do espaço-tempo e na remodelagem delas em novos objetos. Objetos como os anéis e os brincos, pois os compositores nada mais são do que ourives do som e/ou da palavra. Logo, quando uma pessoa cantarola no metrô, é como se aquele material sonoro retivesse no presente uma joia do passado.

Mas vamos lá: meu amigo Rodrigo não estava tentando convencer ninguém dos seus dotes de Don Juan no momento em que bradou “em vez de você ficar pensando nele”. O que ele provavelmente expressou foi uma identificação com a personagem da canção, que sofre ao não ser valorizada por quem ama. Ele poderia estar pensando em seu pai, seu irmão, ou até mesmo na sua professora: não importa. Uma canção é boa para o ouvinte quando se adequa à sua realidade, tanto faz qual foi a intenção de sua criação.

Há alguns dias, mais especificamente em 25 de fevereiro, seria aniversário de George Harrison.

Guitarrista e cantor inglês, o ex-membro da banda The Beatles faleceu em 2001 e foi homenageado no ano seguinte por amigos e parceiros de música. O resultado foi um concerto enorme, que deu origem a um DVD e a um álbum duplo. Dentre os clássicos de quase quatro décadas de carreira, o momento mais tocante é a canção que fecha o espetáculo. I’ll See You In My Dreams é uma composição de Isham Jones e Gus Kahn, mas teve sua primeira gravação de destaque com Django Reinhardt e Stéphane Grappelli em 1939. Django e Stéphane eram uma dupla incrível. Tinham um suingue e uma velocidade que contrastava com seu repertório melancólico característico — sendo Reinhardt sempre a grande estrela. Cigano nascido na Bélgica, viveu em Paris durante a ocupação nazista da França. Em constante perigo, carregava em suas obras o peso da violência contra seu povo e, embora a sua versão de I’ll See You In My Dreams seja instrumental, é possível perceber a história da letra de Gus Kahn: alguém se consola dos problemas do mundo por meio da lembrança da pessoa amada. Ela não está mais por perto, mas ele tem certeza de que vai encontrá-la nos seus sonhos — e esse encontro resolverá tudo. Para Django, essa era a sua realidade; famílias afastadas por leis bárbaras que alimentavam a memória do amor como forma de resistência.

63 anos depois, Joe Brown, músico e amigo pessoal de George Harrison, escolhe a mesma canção para encerrar o espetáculo-celebração da vida de George. Aqui, a música assume outro lugar, com um homem que, ao cantar a saudade de seu amigo, preenche os versos românticos com novos significados.

Por exemplo, o trecho que evoca “lips that once were mine” (“lábios que um dia foram meus”) se encaixa perfeitamente no sentimento de identificação do público com a conhecida voz do homenageado; uma voz que deixa de estar fisicamente presente mas nunca se apagará da lembrança de quem um dia foi impactado por seu brilho.

Apesar de virem de contextos completamente diferentes, Rodrigo, Django e Joe sentem a mesma coisa com as canções: saudade. Esse estado de presença da ausência é essencial para gerar identificação. Joe sentia o falecimento de um amigo. Django sofria pelas perdas do seu povo. Já Rodrigo, se não foi por um caso misterioso de amor não-correspondido, foi o prazer de se entregar às memórias despertadas por Pense em Mim que o fez cantar naquele dia.

Desse jeito, vão-se naturalmente as coisas todas da vida. Talvez podemos até esquecer dos momentos de dor, dos amores e dos perigos de nossa existência. Porém, para construir uma canção, cada sentimento deve ser encarado corajosamente até que seja bem lapidado. Suas arestas, arredondadas. Seus arranhões, consertados. As peças encaixadas, para que a memória original sirva de substância para novas histórias.

É como se a música pudesse cristalizar o momento presente de cada ouvinte em verdadeiros diamantes eternos.